O homem de terno um pouco velho atentava, porém ninguém lhe dava ouvidos. Já esgotado da caminhada de porta em porta, trem em trem, resolveu parar no meio da praça, sacou um livrinho de capa preta e sobre um caixote de madeira, tudo muito improvisado, esgoelava-se dizendo que "Ele" logo iria chegar e que o Dia do Juízo Final já estava dando sinais de sua iminente e impiedosa aurora. Seu terno um pouco velho, amarrotado e suado arrancava risos contidos, olhares curiosos e muita bronca, pois era dia quente, hora de batente, a praça cheia e o homem anunciava. E o homem não desanimava, há tempos que batendo em portas, tocando campainhas e pedindo um minutinho de atenção não conseguia crédito, então deixava apenas folhetos convidando para uma sessão. Certa vez anunciava do alto de um viaduto, outrora resolveu palestrar dentro de um ônibus, a praça era o principal trunfo.
Pois é, sabedoria para os homens, loucura para Deus, e o homem anunciava. Um grupo de jovens rebeldes e moderninhos que passava tirava uma com a cara do homem, eles gritavam “Aleluia!”. A mulher gorda, cheia de sacolas debaixo do braço, arrastando um rebento, puxava o menino como se quisesse protege-lo da loucura do homem. Senhoras idosas passavam e balançavam suas cabeças em sinal negativo com olhar de compaixão. Um casal cochichava, talvez não eram crentes, ou seriam católicos não praticantes, algo muito comum naquela cidade. A multidão seguia apressada de um lado para o outro numa desorganização organizada, era hora de almoço, de compra e de levar criança pro colégio. Um sociólogo materialista dialético também por ali passava e através de seus óculos analisava “aí está a mais verdadeira prova da alienação”. O bêbado equilibrista nada entendia, pois pra ele tanto faz, o céu no chão ou o chão no céu, nem ele se dava conta de onde estava pisando. Outros homens de terno passavam apressados, porém estes portavam pastas e crachás, e como tempo é dinheiro, pouco se importavam se o homem anunciava marcianos ou algum ídolo estrangeiro. Tanta gente passando e o homem gritando, tarefa mais difícil que a de vendedor é a de mensageiro, mas insistia que aquilo sobre o qual discorria estava mais próximo do que todos pudessem imaginar.
Deram duas horas da tarde, duas e meia, três, quatro e por volta das quatro e quinze, ali mesmo na praça movimentada algo inusitado parecia que ia acontecer. Acontece que o homem se calou, as nuvens numa dinâmica incrível faziam ciranda no céu em formato de redemoinho e o sol lançou violenta luz que parecia cegar a todos. As pessoas pareciam atordoadas, paravam petrificadas e ao olharem para cima: nem medo, nem coragem, nem tristeza, nem alegria, nem desespero, nem conforto, nem arrependimento, nem esperança. Êxtase. Acompanhado por um monstro de sete cabeças com o número 666 tatuado na cauda e algumas criaturinhas muito bonitas com asas nas costas, Jesus Cristo em carne e osso desceu sobre a praça e a julgar pelo seu olhar, muita coisa estava por vir. Aquilo tudo era simplesmente fantástico.
Imagem: Raimundo de Oliveira (1930-1966), "Ascensão de Jesus", 1958. wwwarteeventos.com.br.