quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Que eu te escuto

Rasgue o verbo,
chora,
prossiga,
diga.

Pelos cotovelos,
mais que a boca,
mais que o homem da cobra,
do que pobre na chuva.

Sem papas na língua,
sem deixar passar em branco,
sem respirar,
nem engolir saliva

Com verborragia,
com incontinência verbal,
como matraca,
como se eu fosse Beethoven.

Faça seu discurso,
solte o que está preso na garganta,
em alto e bom som,
pra quem quiser ouvir.

Quem cala consente,
cale-se e te abstenha,
Conta tudo, não esconda nada.
Fala... que eu te escuto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Pragas Urbanas

Biólogos e especialistas em pragas urbanas tentam explicar as causas desse tipo de incômodo muito comum nas grandes cidades e que em determinadas épocas do ano infestam as ruas, estabelecimentos e residências causando transtornos, contaminando ambientes e trazendo prejuízos à saúde da população. Com a chegada do mês de novembro as pragas urbanas começam a proliferar, pois aproxima-se a época do calor (humano).

Conversamos com um especialista no assunto, Dr. Gregor Samsa, que tenta nos esclarecer sobre os tipos mais comuns desses bichinhos indesejáveis e como podemos tentar combatê-los. Segundo o especialista, define-se como sujeitos sinantrópicos aqueles que se adaptaram a viver junto à sociedade, a despeito da vontade dela. “Com o corre-corre cotidiano acabamos, muitas vezes, nos acostumando com eles até que nos causem algum tipo de embaraço”, diz o especialista.

Mas quais seriam as causas deste tipo de infestação? Tudo indica que é provocada por algum desequilíbrio ambiental relacionado ao modo de vida modernex: Fast-food, consumismo, contas a pagar, chifre, excesso de telefone celular e internet, narguile, MTV e por aí vai. Estudos recentes comprovam que se não forem combatidas ou controladas, estas pragas podem trazer efeitos nocivos a saúde pública como: mudança de comportamento, neurose coletiva e em alguns casos mais graves a pessoa pode vir a ter ou levar outra a óbito.
Abaixo destacamos alguns tipos mais comuns de pragas urbanas e como tentar evitá-las:

Isoptera – mais conhecido como cupim, este costuma parar o carro sobre a faixa de pedestres em cruzamento de intenso movimento de pessoas a pé, estaciona o veículo atravessado em cima da calçada te obrigando a dar a volta pelo meio da rua e ser atropelado por uma moto. Para se prevenir deste inconveniente, saia de casa apenas aos domingos e feriados prolongados, eles costumam se deslocar para o litoral.
Periplaneta – nunca se sabe se ele (a) é macho ou fêmea, pinta os olhos com lápis preto, usa franja lambida na testa e piercing em tudo quanto é buraco do corpo. Geralmente são encontrados em: shoppings, estações de metrô ou em shows dessas bandas que tocam guitarra e cantam coisas melosas, também são conhecidas como baratas, para evitá-los é bom se disfarçar de João Gordo, elas têm medo.
Mus musculus – os ratos estão em toda parte, na Vinte e Cinco de Março, em ponto de ônibus ou espreitando nossas casas. Muito cuidado com eles e em casos de furto, roubo ou batida de carteira, reze três Pai-Nosso ou arrisque ir a uma delegacia e passar mais raiva ainda.
Formigas – andam em bandos fazendo algazarra e não sabem falar, só gritam. Não param de comer um só minuto, geralmente comem tudo o que contém açúcar, principalmente pirulito e chiclete. Se você encontra uma sozinha, ela é inofensiva, porém quando se junta com outras da mesma espécie, são insuportáveis! Também são encontradas em esconderijos e becos como shoppings, lan-hause e lanchonetes de fast-food. Por precaução, não freqüente estes locais.
Columba lívia – pombos adoram fazer sujeira, se está dentro de um ônibus, joga frasco, lata e papel de bala pela janela, andando pelas ruas e calçadões fazem a mesma coisa. Outro tipo mais avançado dessa espécie de praga costuma causar danos ainda maiores: depredação de patrimônio público, atos de vandalismo e pichações em paredes de propriedades privadas. A prevenção se dá por meio de medidas sócio educativas.
Aracnídeos – esta espécie parece ter oito patas, pois surgem do nada, agarram você pelo braço e querem ler a sua sorte na palma das mãos de qualquer jeito. Este tipo veste saias coloridas e tentam te convencer que podem prever o seu futuro e se você não der atenção te mandam praquele lugar e ainda rogam praga! Evite lugares como: praças, calçadões e ruas movimentadas no centro da cidade, pois sempre há algum nestes lugares.
Cigarras – podem causar perda de audição, infestam trens urbanos zoando de um lado para o outro tagarelando num ritmo alucinante, entregando papeizinhos e mostrando fotos de origem duvidosa, é a chamada miséria S/A que acabou de chegar. Na dúvida não dê dinheiro, eles podem ter um esquema mais lucrativo que o seu emprego por trás deles.

E tenha muita atenção, espécies indesejáveis podem ser evitadas tomando algumas medidas preventivas em casa, no trabalho e ambientes públicos, elas só precisam de comida, atenção e disciplina. Procure não utilizar produtos químicos, cuide das suas crianças e mantenha um ambiente de higiene espiritual. Lembre-se: as pragas são produtos do próprio homem, não dê pipoca aos pombos.

domingo, 2 de novembro de 2008

Ele está no meio de nós

Minhas mãos não são capazes de te deter,
O que eu não faço neste mundo pra poder te ter.
Que cada um o tenha na quantidade que merecer,
Sujo, suado, lavado ou colado com durex pra quem quiser ver.

Cigarros, carros, hotéis de luxo, itens caros.

Faça a guerra, compre a paz, cumpra acordos internacionais,
Quebre as bolsas, engorde os bolsos dos colarinhos brancos e dos marginais.
Saia do suor de alguém e encarne num pedaço de papel,
Você nasceu e cresceu, então multiplique-se, não é pecado, compre até o céu.

Iates, boates, mansões de condomínio, vidros raros.

Venha dos braços e das máquinas e gire o mundo,
Passe de mão em mão, torne sujo o que é limpo e sagrado o que é imundo.
Junto a ti terei muitos amigos, fica comigo, fica...
Tudo em torno de você, você permeando tudo, traga o que é bom e provoque a ira.

Viagens, massagens, rolex, cruzeiros.

Então fique feliz, eu te amo, a Adriane te ama, todos te querem.
De plástico, em débitos, créditos, virtual ou rígido como cobre, não deixarei que te levem.
Faremos de tudo em sua busca desenfreada,
Às favas os brios e a lucidez, passaremos a vida inteira nesta árdua jornada.

Venha de onde vier, do jeito que vier,
Traga o que trouxer,
Aqui estamos às suas ordens, trabalhando, pedindo, roubando,
sempre famintos...

Inspirado no som "Você" da banda Dead Fish.
Imagem retirada de lojakings.com "propaganda gratuíta"

sábado, 1 de novembro de 2008

Veneno

Então o chamaram e com olhares carniceiros, começaram a rodeá-lo e de um jeito bem provocativo: “Chamamos o senhor por que é sensato e nunca seria capaz de cometer injustiças! Também sabemos que jamais seria capaz de condenar uma pessoa por qualquer motivo, sempre prega o dom de perdoar” – estavam experimentando aquele homem para ver se ele ficava apurado – “o que tem a dizer sobre o caso?”. Apontavam uma mulher de cabeça baixa e diziam que era infiel ao marido, levava uma vida impura. Todos já munidos de pedras nas mãos esperavam uma resposta - “agora queremos ver o que vai fazer pra sair dessa” - olhando a situação vitoriosos. Por um lado o “juiz” não poderia defender alguém que vivia em pecado, por outro, se condenasse a pobre diaba ao apedrejamento derrubaria por terra seu ministério em defesa do perdão. Foi aí que agachou, ficou um tempo em silêncio, rabiscou o chão, olhou para o céu e com toda calma do mundo respondeu: “Aquele que aqui estiver livre de pecado que atire a primeira pedra”. Em questão de minutos a multidão se desfez, saindo um a um procurando mais o que fazer.

                                                   ***

Numa tomada externa o repórter pára uma transeunte e pergunta sobre a sua opção – era antevéspera de eleição e só se falava nisso -, a mulher num misto de distanciamento, ignorância e esperança respondera que na hora em que fosse votar escolheria um candidato, pois ainda não conhecia nenhum. Direto do estúdio o âncora acrescentava didaticamente que o povo brasileiro deveria se atentar mais à questão e voltando para a imagem da rua daquela periferia próxima ao quinto dos infernos, o repórter num surto criativo pergunta se a vida naquele lugar é boa e o que a distinta senhora espera do próximo prefeito. Ajeitando a criança catarrenta no colo, a mulher responde que “os político devia olhá mais pro povo e aqui, a gente é pobre mais é feliz”. Num tom emotivo o experiente apresentador emenda: “Aí está a imagem do povo brasileiro. Que garra tem esse povo sofrido! Ta aí a lição de vida que devemos tirar de nós mesmos todos os dias, apesar do sofrimento essa gente ainda consegue ser feliz, a gente reclama do que? ... E depois do intervalo: as expectativas dos comerciantes de shoppings para as vendas de fim de ano, a estimativa é de um novo recorde, é já já...”

                                                    ***

Sobre a mesa do professor descansava a última edição daquela revista de circulação nacional com sua famosa seção de páginas amarelas e ele muito convicto xingava o governo, as igrejas, o modo de produção vigente, bradava retumbante. Pleno de toda razão discursava a favor dos desfavorecidos pela ditadura da disparidade social, citava pensadores importantes, frases de impacto moral e vetava as escolhas de seus ouvintes. De meia em meia hora o vazio emocional dos alunos era quebrado pelas badaladas do sino da Igreja da Matriz que ficava na praça em frente à escola. De dez em dez minutos a verborragia inflamada do mestre era obliterada pelos toques de celulares que soavam as mais extravagantes e alegres canções eletrônicas. De cinco em cinco minutos o ar da sala de aula se tornava ainda mais denso com os bocejos rebeldes. Como num ciclo vicioso, a roda de palavras girava: esquerda, capital, direita, religião. A metralhadora do mestre ativara para todos os lados e em todas as direções, já não se sabia mais quem era o alvo ou a vítima de seus apontamentos, pois a razão que permeava o discurso ora preventivo, ora de reprovação crescia inexoravelmente em direções opostas. Criticava a opressão do trabalho, a repressão política e social e a submissão diante da religião. Olhou para o relógio de pulso, viu que o tempo expirava e ao toque do sinal indicando o fim do dia letivo, num tom de advertência, despediu-se dos ouvintes: “Agora vocês estão liberados”. Na manhã seguinte, ao entrar na sala de aula ainda vazia, em letras impregnadas de muita vida, observou que no quadro de giz estava escrito: “ABAIXO A DITADURA DO PENSAMENTO!”.