sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vê se me ouve

“A diretora da escola disse que a mãe dele contou que ele só fica no quarto ouvindo essas bandas de rock que têm esses vocalistas gays e que as paredes são cheias desses pôsteres com caveiras. Disse também que foi um sacrifício pra ele cortar aquele cabelo comprido que usava. Imagine só! Até parece que nessa idade vocês já sabem de alguma coisa. Pode fazer cara feia, você não vai.

Viu só aquele negócio que ele tava usando no nariz? E dizem que ele começou assim como você está fazendo agora. Eu já não sei mais o que faço com você. ‘Oh, meu Pai dai-me um auxílio’. Eu fui criada sem religião, mas tive educação e agora que chegou a hora de educar o meu filho eu não consigo, eu não consigo! Esse menino nunca ouve o que eu digo...

Como assim, o que eu estou fazendo?! Você sabe que quando eu fico nervosa eu preciso acender um cigarro. Ah, não pedi sua opinião, o dinheiro é meu e eu faço o que eu quero, não comprei o cigarro com seu dinheiro e quem trabalha aqui sou eu. E tem mais, se algum dia eu te pegar cheirando maconha, você vai levar uns cascudos até dizer chega, aqui nessa casa não entra droga. Opa! Não responda enquanto eu estou falando com você. O que foi que você aprontou dessa vez? Fala. O gato comeu a sua língua por acaso? Seu ‘malcriado’. Já falei que você não vai e ponto final.

Sabe que não te reconheço? A quem será que puxou? Sempre teve de tudo: carrinhos caros, bicicleta, videogame, tênis de marca e mais um monte de coisas que eu comprei. Será que faltou alguma coisa? Seu ‘mal educado’. É isso que dá andar com más companhias. Você não tem maturidade mesmo. Vai acabar ficando igual à ele, por isso você não vai e estamos conversados.

Olha, eu estou muito decepcionada com você. O que você vai ser no futuro? Isso não dá futuro pra ninguém. Eu sei o que estou falando. Eu nasci há quarenta anos atrás e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais. Já está todo mundo cochichando na vizinhança. Daqui a pouco vão dizer que você é uma má influência pras outras crianças! Pode tirar essa camiseta e desfazer essa cara amarrada, você não vai... não vai mesmo. Amanhã é dia 23, são oito dias para o fim do mês e se você insistir nessa teimosia eu corto sua mesada. Pode chorar, pode se ajoelhar e até me implorar um beijo, mas não vou te perdoar. 


Então... passe isso pra cá, você não vai ficar com isso aqui em casa. Dá meia volta e vá direto para o seu quarto! E pra terminar essa conversa eu vou repetir em letras maiúsculas: VOCÊ NÃO VAI ficar com esse Revolver.”

PS: Revolver é um álbum da banda The Beatles de 1966. Salve Rubinho Troll!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Atitude Marginal

Hoje resolvi ter uma atitude marginal. Saí de casa e a primeira coisa que fiz foi pegar um ramalhete gigantesco de flores para sair distribuindo aleatoriamente. Quem cruzar o meu caminho corre o risco de levar um entusiasmado aperto de mãos e não se espante se de repente um estranho no meio da rua vir em sua direção de braços abertos, pode ser que seja eu querendo lhe dar um caloroso abraço. Hoje quero estar a margem dessa sociedade, direi muitos “obrigados”, “me desculpe”, “por favor”, “eu preciso de você” e se tentarem me tirar do sério, juro que vou tentar considerar o ponto de vista de quem o fez. Vou ficar à margem dos desafetos, do medo do outro, do distanciamento entre as pessoas, da injúria, do individualismo exacerbado, do egocentrismo, do egoísmo e das injustiças.

Hoje serei um marginal no lugar onde vivo, vou ouvir boa música, ler - de preferência bons livros -, usarei vocabulário refinado, não quero proferir baixarias, vou selecionar o que passar na televisão, darei importância a tudo que puder acrescentar algo de bom e humano à minha cultura. Pretendo recolher o lixo que eu produzir, separando-o para reciclagem, usarei apenas o necessário para sobreviver.

Nessa atitude marginal, vou fazer diferente do que já fiz, sairei pelas ruas observando tudo, cumprimentando a todos, prestando atenção no que diz aquele monte placas, tentando ouvir pássaros, admirar jardins e árvores, ver as cores das roupas das pessoas, “ver as pessoas”. Serei gentil com o balconista da padaria, com o cobrador de ônibus, pegarei todos os panfletos que cruzarem meu caminho e prometo ler um a um, se me pedirem um minutinho de minha atenção, não terei pressa, nem compromisso importante naquele momento.

Estou cansado do habitual, vou cometer infrações como respeitar a faixa de pedestres, não jogar papel de bala no chão, deixar que os não-fumantes respirem ar puro, aguardar meu momento de ser atendido nas filas, desligarei meu celular em lugares que carecem de silêncio, vou ouvir o que o outro tem a dizer, falarei mais baixo. Se a imagem e a aparência quiserem falar mais alto, prometo que vendarei meus olhos para que desapareça toda a diferença, discriminação, cores desarmônicas, e o que for feio poderá ser belo e vice-versa, deixarei o coração dominar a razão.

Quero me tornar um marginal, fazer diferente daquilo que nos faz tão mal, respeitarei o meu vizinho, guardarei o impulso emocional das partidas de futebol para tomar partido do que é injusto em meu país, vou ignorar o carnaval, respeitar as mulheres como se fossem mulheres, tratar as crianças como se fossem simplesmente crianças, valorizar os velhos como se fossem jovens e deixar transparecer minha boa educação.

Hoje terei uma atitude marginal, falem bem ou falem mal, vou por aí cometendo esses delitos, sei que muitos ficarão boquiabertos de testemunhar tal impertinência, e no meu comportamento estranho, fora dos padrões de nossa realidade, serei considerado doente, louco, perigoso e fatalmente feliz.
Imagem retirada do site http://www.fotoplatforma.pl