quinta-feira, 21 de julho de 2011

Wiki-pédia-pédia-pédia!

- Professor! Pra que precisamos aprender geografia?
- Pra crescer e ficar sabido, pequenino.
- Mas... não faz sentido eu ficar decorando os nomes dos lugares e suas capitais.

- Se você não souber isto, como vai fazer se algum dia viajar pra outro estado ou país? Já pensou você num lugar sem saber o nome dele ou onde fica?
- Professor, não me venha com essa conversa. Não faz sentido ficar decorando coisas que sempre estão mudando. Olha este mapa-múndi, nem consigo achar onde fica a Iugoslávia!
- E nem vai achar mesmo, ela não existe mais. Assim como a Alemanha Oriental e a Birmânia, que agora se chama Myanmar, ou a Tchecoslováquia e a ...
- Aaahhh não! Assim não dá. É mais um motivo pra não ter que estudar e ficar decorando estas coisas.
- Pois é.
- Mas professor, se existe a internet e o Atlas Escolar pra gente pesquisar, pra que eu vou ter que guardar tudo isto na cabeça? É muito país pra saber o nome e onde ele fica. Quantos países existem no mundo?
- Depende pequenino, considerando aqueles não reconhecidos pela ONU e os micropaíses e regiões em litígio fronteiriço ou ainda aqueles em processo separatista, por exemplo, podemos afirmar com pouca precisão que...
- Caracas! Vai me dizer que não tem resposta pra isso, e se a gente perguntar no Twitter, ou pesquisar no Google, será que alguém saberia responder? Acho que lá vai ter uma resposta, pois o livro de geografia é do ano passado e muita coisa pode ter mudado né?!
- Isso mesmo, mas agora vamos falar do Amazonas já que estamos estudando o Brasil, nosso lindo e imenso país tropical abençoado por Deus e rico por natureza.
- Amazonas! O que a gente vai estudar sobre o Amazonas? Lá só tem floresta e bichos, “nem sei se tem civilização lá”.
- Por isso mesmo é que vamos estudar o estado do Amazonas.
- Por que a gente não estuda sobre o “Mato Grosso do Sul”? Sabia que eu já fui pra “Cuiabá”? Minha avó mora lá, eu amo o Mato Grosso do Sul.
- Pequenino, você tem razão! Estudar pra que? Ainda mais quando se conhece bem o lugar onde a gente mora ou passeia. Mas... o papo está muito bom porém, como lição de casa vocês terão que decorar o nome de todos os municípios do estado do Amazonas e acho bom decorar também o número de habitantes de cada um, e ... vamos ao processo civilizatório do Amazonas...
- Com todo respeito professor, você ta louco?! Já pensou se a gente tiver que estudar os 27 estados brasileiros e decorar os nomes de todos os municípios de cada um deles?
- Pois é, por enquanto vai ser mais fácil, pois no Congresso tramitam projetos para a criação de mais 11 estados em nosso território, aí sim vocês terão mais trabalho para decorar.
- Não falei! Se vão mudar tudo de novo, pra que se preocupar em decorar isto agora? E o que a gente vai fazer com esse livro de Geografia quando tudo mudar?

- Faça uma doação, ou então, junta tudo, guarda e vai ouvir happy-rock. Música boa também traz cultura.
Reiniciando...


Fonte da foto: se esqueci, acho que é internet ou Gugol!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Gerson era “o cara”


Gerson I - A origem

Gerson sempre teve amor próprio e era tanto amor que acabou se tornando o centro do Universo para si mesmo. O desprezo pelo outro fazia-o enfatizar cada vez mais o próximo em suas ações cotidianas. O dia começava depois de uma bela e caprichada cagada em algum banheiro público. Limpava-se, abria a porta do reservado e saía. Dar a descarga pra que? O próximo a usar a privada poderia fazer isso e se caso não fizesse, alguém que ganha pra limpar banheiros o faria.

Gerson II – A missão

Gerson bebia cerveja enquanto dirigia seu carro. Saciada a sua sede e amenizado o calor do corpo - provocado por aquele trânsito infernal -, simplesmente se livrava da latinha jogando-a pela janela do veículo ali mesmo na rua . Afinal, não há coleta seletiva em todas as ruas e avenidas da cidade e jogar latas de alumínio no lixo comum dificulta o trabalho dos catadores de latinha e seu meio de sobrevivência, então, fica mais fácil apanha-las no asfalto.

Gerson III – E a câmara secreta

Gerson ia às compras no hipermercado, pegava um item na seção de produtos de limpeza, desistia do produto e dispensava-o numa prateleira qualquer da seção de laticínios ou cereais, os repositores estavam lá para organizar as gôndolas e deixar tudo bonitinho, enfileirado e separado do jeito que a gente sempre encontra quando vai ao mercado. Ao sair para o estacionamento levando o carrinho abarrotado de compras, Gerson enchia o seu bagageiro, fechava-o e saía dirigindo satisfeito deixando o carrinho ocupando a vaga ao lado ou na traseira de outro carro qualquer. Quando o outro motorista chegar, não custa nada ele guardar o carrinho no espaço reservado para isto.

Gerson IV – Esqueceram de mim

Gerson costumava mudar constantemente de endereço. A cada mudança, sempre havia um sofá velho, colchão rasgado ou guarda-roupas quebrado que não tendo serventia na nova casa, era deixado na antiga residência para o próximo morador dar um destino ao elefante branco, às vezes depositava cuidadosamente a bugiganga na calçada em frente a um terreno baldio ou mesmo em frente ao muro da vizinhança. "Pra onde vou... é longe e não passarei mais por aqui", pensava ele.

Gerson V – A rede social

Gerson tinha uma certa propensão a lembrar e esquecer fatos e compromissos repentinamente e em momentos pouco oportunos. Ao dirigir pelo centro da cidade parava seu carro no meio da pista para pedir informações sobre endereços interrompendo o fluxo logo atrás, considerava sua "urgência" uma "urgência de maior urgência". Quando se encontrava na condição de pedestre, atravessava a rua - onde lhe conviesse -, ignorava a calçada e as faixas de sinalização, ia pelo meio da rua mesmo, sabia que o pedestre sempre tem razão e que os motoristas não são bestas.

Gerson VI – O retorno do rei

Gerson era simples assim. Transferia o problema para os outros, levava vantagem, mas não passava ninguém pra trás, apenas “chegava na frente”. Tinha sempre razão em todo lugar, queria ser bem atendido, era o escolhido, simplesmente o máximo! Algum dia ainda receberia a estatueta do Oscar, pois era o melhor em todas as categorias, campeão de bilheteria.

Gerson - Parte final: E as relíquias da morte II

Gerson permanecia na sua trajetória de glória até que um dia encontrou Frederico. Fred ou Kiko, como era conhecido, trafegava acima do limite de velocidade permitido para transitar naquela rua residencial, quando ouviu um baque e sentiu o automóvel dar um solavanco. Olhando pelo retrovisor viu um corpo lá estendido no chão, o corpo ia ficando pra trás e cada vez menor na paisagem. Era Gerson o atropelado. Kiko não parou para socorrer pois estava atrasado a caminho de um importante compromisso e pensou com tranqüilidade que alguém iria fazer alguma coisa para resolver “o problema”. Ninguém se responsabilizou, Gerson agonizou lentamente esperando providência alheia e padeceu.



Inspiração: reportagem publicada no site do Jornal de Lavras " Desrespeito incomoda um cidadão de Lavras" ; publicada em 20/07/2011 08:01. Foto:Jornal de Lavras. Sobre a "Lei de Gerson": http//:super.abril.com.br/superarquivo/2004/conteudo_124358.shtml.

sábado, 9 de julho de 2011

Sim, esqueleto!



Ele até que tentou de tudo, tornou-se palhaço, porém não havia como fazer o povo rir. Também, na atual conjuntura do país, não ta nada fácil fazer ninguém rir mesmo. Procurou o Sindicato dos Palhaços e reclamou das más condições de trabalho e da falta de perspectiva profissional. Em sua insana insistência pelo otimismo foi mais além, decidiu fazer algo muito mais grandioso para trazer a felicidade àquela cidade: mudar a paisagem! Pendurou lanternas coloridas pelas ruas da cidade, grafitou muros dantes encardidos, pintou frases com mensagens positivas em postes, semeou flores nos canteiros das praças, inclusive aquelas que não se localizavam em frente cemitérios, e até coloriu as faixas de pedestres da avenida principal, uma de cada cor. Não houve efeito. Ninguém tem tempo e nem humor para prestar atenção em bobagens no meio da rua, é tanta balburdia e tanto compromisso importante. O único resultado prático, que talvez possa ter atingido, foi um atropelamento na tal avenida onde as faixas de pedestres, misturadas à toda poluição visual, confundiram um cidadão mais desatento que tentou atravessa-las a cinco metros de onde realmente elas ficavam.

Ele se dirigiu até uma escola, levava doces e sorriso largo, até vestiu fantasia de pantera cor-de-rosa para a ocasião. Após muita insistência conseguiu adentrar no recinto e na esperança de adoçar os sonhos e provocar reações positivas nas carinhas carrancudas, constatou que as pequenas criaturinhas já estavam muito bem instruídas a não aceitarem nada de estranhos, nem mesmo se tiverem vestidos com fantasia de personagem de desenho animado.

Prosseguiu o sujeito tentando tirar as pessoas do estado de apatia crônica, sentou em uma praça segurado um cartaz enorme com os dizeres “Abraço grátis em troca de um sorriso”, e achando que se tratava de um louco em greve de fome, o povo passava longe, as pessoas atravessavam a rua para não correrem riscos. Só após três meses transcorridos de inusitada instalação artístico-protestante na praça, percebeu o jornal da cidade algo diferente na paisagem daquele local público e resolveu averiguar e noticiar tal fato. Saiu assim em notinha na segunda página: “Atrapalhava a circulação de pessoas em local público e foi detido por indecência e atentado ao pudor.”

Insistiu. Algum tempo depois, lá estava ele novamente tentando causar euforia e dessa vez segurava balões multicoloridos de gás hélio que se agitavam ao sabor do movimento do ar e eram tantos que quase o arrancavam do chão em direção às nuvens. Rodopiava nas pontas dos pés, dançava e oferecia balões aos transeuntes, estes olhavam de soslaio para o sujeito e esquivavam o corpo.

Suco de limão sem açúcar, notícia de morte, início de expediente, conta vencida pra pagar, segunda-feira mal dormida, esse povo não ri! O jeito foi apelar. Parecia um momento surreal quando os humanos apáticos presenciaram uma chuva de dinheiro a tingir a paisagem do centro da cidade de azul. Não se sabe ao certo a origem das cédulas, mas elas estavam lá, caíam aos montes, em diferentes valores e velocidades, pousavam no chão, sobre os carros, as copas das árvores e no teto da banca de revista, mas ninguém se atreveu a tocar em nenhuma delas, ninguém esboçou sorriso ou pelo menos uma reação positiva, olhavam para o alto de um prédio onde podiam avistar o sujeito despejando os cobiçados pedaços de papel. Cada um seguia o seu caminho e a sua rotina sem se alterar diante de tal contratempo e nem mesmo aceitaram as flores oferecidas por um enorme sorriso. Ninguém se comove diante daquilo que vem de um esqueleto.