Sei que parece engraçado para alguns e trágico para outros, mas a verdade é que eu tenho um raciocínio lento pra determinadas situações. Não espere que eu ria da piada quando terminar de contá-la pra mim, aguarde alguns dias e certamente me verá rindo sozinho. Resolvi comentar sobre isso agora, porque só agora caiu a ficha acerca de uma situação pouco agradável ocorrida na semana passada – e dá-lhe raciocínio lento! – e que por um motivo qualquer voltou à minha lembrança e causou reflexão neste momento. Sabe aquelas situações que te deixam embaraçado e passam a largo e que depois de algum tempo, com mais reflexão, você pensa que não deveria ter deixado barato e feito desse ou daquele jeito para dar uma resposta à altura (ou “baixura”) do sujeito que a provocou? Mas o tempo não volta atrás e fica o aprendizado.
Semana passada estava eu trabalhando – no meu mais novo e recente emprego – ainda em fase de descobertas e experiências, e como deveria ser bem natural, eu ainda não conheço as centenas de “colaboradores” da empresa, já que se trata de pouco tempo de casa, primeira semana. Estava no meio de uma palestra, em meio ao expediente do dia quando se materializou um espectro humano e estranho na porta da sala de aula. Quando percebi ele já deveria estar ali a algum tempo e como manda a boa educação, interrompi o que fazia e perguntei se poderia ajudar. O sujeito disse simplesmente “– continue...” e ficou observando o meu trabalho. Pela reação da platéia notei que era alguém conhecido e que de alguma forma impunha alguma autoridade sobre os demais. Continuei meu trabalho até ser interrompido com um “- qual é o seu sobrenome?”, achei estranho, manda a boa educação que ao interromper os afazeres alheios de pessoa que não se conhece ainda, se peça licença e se apresente, mas não foi o que aconteceu ali. Situações inusitadas me deixam sem reação as vezes – raciocínio lento que tenho! – percebi que se perguntasse quem era o vulto, poderia levar uma carteirada do tipo “você não sabe com quem está falando vassalo?” e isto não seria confortável em público, permaneci no que estava fazendo. Tudo seria muito mais simples se não fossem as novas interrupções do meu trabalho com abordagens bizarras e um desfecho incógnito. Não as comentarei aqui.
Sim, como se não bastasse o primeiro momento bizarro, ainda teve um desfecho tão bizarro quanto a história toda. Naquele mesmo dia, em horário de intervalo, estava eu na sala do café e notei que em meio aos colegas de trabalho conhecidos e não conhecidos, a personalidade da situação anterior contava piadas e fazia uma boa parte de seu séquito cagar de tanto rir. Assim que adentrei no recinto, fez-se um certo hiato e uma nova “piada” começava a ser elaborada pela autoridade. Dizia respeito à interpretação que se pode fazer acerca da “pedra” do poema de Carlos Drummond de Andrade. Com reverência houve nova gralhada de risadas, elevando ainda mais quem já é das alturas. Eu vassalo insignificante e substituível, porém de certa inteligência, num lapso de clarividência entendi e anotei o recado, a pedra se colocaria e se faria notar no meu caminho... cuidado seu moço! Ali se faz, mas se faz conforme é permitido ou autorizado, liberdade vigiada. Entendi!
Quando se tem o raciocínio lento como o meu, o melhor a fazer é transformar a situação adversa em aprendizado. Eu tirei a minha lição. Pedras são pedras! O que se faz das pedras é o que vinga. Nunca fiz uma análise epistemológica do poema de Drummond, já ouvi dizer até que a pedra do tal poema famoso era simplesmente uma pedra qualquer. No meu entender, a pedra de Drummond não era uma pedra qualquer, ela era pesada e pontiaguda, um obstáculo para o caminhante. Tudo depende do ponto de vista do apreciador da pedra. A pedra da Mulher que escreveu a Bíblia – de Moacyr Scliar – por exemplo, era simplesmente sua razão de viver e fonte de prazer em determinado momento de sua vida. Pra mim, no meu pouco aprendizado com a vida, as pedrinhas que vou encontrando no meu caminho tem o significado de construção. Ainda que eu tropece em algumas, sempre as guardo e as encaixo na escada que tenho construído desde muito pequeno. Quanto mais pedrinhas surgirem, mais chance de aumentar a altura da minha escada. A cada degrau construído posso subir mais um lance dessa escada feita de pedrinhas e a isso eu chamo de desenvolvimento humano. Dificuldades são oportunidades de aprendizado.
Imagem retirada do site: http://www.infoescola.com/arqueologia/moais/


