sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O candidato sincero

Sob o slogan de campanha “ele cumpre com o que fala”, o candidato a governador estadual estava em passeata por aquele bairro de periferia numa zona qualquer da cidade, quando foi interceptado por um grupo de repórteres que cobria a movimentação em vésperas das eleições do ano:
- Sr. Candidato! ... o senhor poderia dar uma palavrinha pra gente sobre o seu projeto de governo?
Abrem-se alas no meio do povo que abarrotava a rua e o homem:
- Sim (sorrisos largos), pois não?
- Quais são as expectativas de campanha do senhor para as eleições que estão se aproximando?
- As melhores possíveis! O povo sabe que no meu governo, "eu roubo mas eu faço"! Basta ver os viadutos, os túneis e aquele estádio de futebol, tudo novinho e superfaturado, custaram até mais do que valiam (sorriso)!
- O senhor não tem medo de fazer campanha aqui na periferia dessa cidade? O índice de criminalidade aqui é muito alto!
- No meu governo a segurança será prioridade! Bandido bom é aquele que “estupra mas não mata”! Lugar de bandido que mata é na cadeia! (aplausos do povo que o seguia pelas ruas)
- O seu partido já tem alguma proposta para a educação pública no nosso estado? O que pretende fazer pelo ensino básico?
- No meu governo, nós vamos transformar essa tal de “Geração Nem nem” em geração “Ou isto ou aquilo”. Para isto, vamos reforçar a progressão continuada... não dá pra ficar repetindo criança de ano, gera custos para o governo mantê-las na escola por tantos anos, tem que diminuir gastos com a educação, temos muitos bandidos pra sustentar na cadeia, a verba tem que vir de algum lugar (sorriso)!
- Mas e o salário das professoras, há no plano de governo algum tipo de incentivo para estas profissionais?
- Meu amigo! “As professoras não ganham mal, elas que não fizeram um bom casamento” e agora ficam se lamentando que não conseguem pagar as despesas em casa e criam baderna nas ruas da cidade, impedindo o trânsito!
- Mais alguma proposta nessa área?
- No meu governo, eu prometo voltar com o programa leve leite. Já estamos estudando como contratar sem licitação a empresa de leite em pó do meu compadre e entusiasta da campanha do meu partido, Fulano de Tal Lacticínios!
 O candidato para de caminhar entre o povo e toma uma criancinha catarrenta no colo e dá-lhe um beijo na testa:
- Na minha gestão, criança não passa fome, criança morre de fome! Só não trabalha quem não quer, emprego tem, o que não tem é mão de obra qualificada! Veja o exemplo da Suécia! Lá não tem gente desempregada. Aqui, o sujeito é vagabundo e deixa os filhos morrerem de fome! Pode isso?
Aplausos ovacionando o candidato.
- Na área da saúde, o que o senhor pretende fazer?
-Vou implantar o S.U.S.T.O. em todo estado! Vamos capacitar os atuais profissionais da saúde para que sejam mais rígidos com esse povo que se amontoa e gera baderna nos saguões dos hospitais e postos de saúde. Se tivermos uma medida mais enérgica com esse povo que adoece por qualquer coisinha, eles não vão querer mais voltar aos hospitais, evitando as filas de espera por mortem in loco.
- Mas, vem cá candidato... e aquela história de desvio de verba na sua gestão passada? Como o eleitorado pode ter certeza de que o senhor é realmente a melhor opção?
- Isso é intriga da oposição, veja só, eu nem fui pra cadeia por causa disso! Não ficou nada comprovado que aqueles bilhões de dólares que desapareceram dos cofres públicos do estado realmente foram parar nas minhas contas secretas nas Ilhas Cayman. Alguém aí me viu carregando tanto dinheiro na cueca? Nem daria pra fazer isso com tanto dinheiro, eu teria que enviar em parcelas ao longo dos quatro anos por transação eletrônica ou contratando empresas fantasmas em processos ilícitos para forjar uma falsa origem desse dinheiro todo. O meu patrimônio aqui em território brasileiro não aumentou em nada. Ninguém provou nada até hoje.
- Pois é candidato, neste ponto o senhor tem razão... e como pretende conduzir sua campanha nessa reta final antes das eleições?  
- Vou intensificar a propaganda do meu partido enfatizando o meu nome. Mais papeis jogados nas ruas com a minha foto, mais carro de som com o meu jingle de campanha “Ele cumpre o que fala”, mais distribuição de dentadura pra esse povo de sorriso maravilhoso e a captação de recursos financeiros em fontes obscuras não param nunca (sorriso e aceno pra uma transeunte descamisada que passava por ali e gritava contente para o “meu candidato”)! – Deixa eu ir que ainda vou tomar um cafezinho ali no barraco da dona... dona... ah, deixa pra lá. (sorriso pras câmeras e pra população, acenos afetuosos).



Dois meses depois o Candidato Sincero se elege governador do estado em primeiro turno com uma margem gigantesca de votos à frente do segundo concorrente.