quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Que eu te escuto

Rasgue o verbo,
chora,
prossiga,
diga.

Pelos cotovelos,
mais que a boca,
mais que o homem da cobra,
do que pobre na chuva.

Sem papas na língua,
sem deixar passar em branco,
sem respirar,
nem engolir saliva

Com verborragia,
com incontinência verbal,
como matraca,
como se eu fosse Beethoven.

Faça seu discurso,
solte o que está preso na garganta,
em alto e bom som,
pra quem quiser ouvir.

Quem cala consente,
cale-se e te abstenha,
Conta tudo, não esconda nada.
Fala... que eu te escuto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Pragas Urbanas

Biólogos e especialistas em pragas urbanas tentam explicar as causas desse tipo de incômodo muito comum nas grandes cidades e que em determinadas épocas do ano infestam as ruas, estabelecimentos e residências causando transtornos, contaminando ambientes e trazendo prejuízos à saúde da população. Com a chegada do mês de novembro as pragas urbanas começam a proliferar, pois aproxima-se a época do calor (humano).

Conversamos com um especialista no assunto, Dr. Gregor Samsa, que tenta nos esclarecer sobre os tipos mais comuns desses bichinhos indesejáveis e como podemos tentar combatê-los. Segundo o especialista, define-se como sujeitos sinantrópicos aqueles que se adaptaram a viver junto à sociedade, a despeito da vontade dela. “Com o corre-corre cotidiano acabamos, muitas vezes, nos acostumando com eles até que nos causem algum tipo de embaraço”, diz o especialista.

Mas quais seriam as causas deste tipo de infestação? Tudo indica que é provocada por algum desequilíbrio ambiental relacionado ao modo de vida modernex: Fast-food, consumismo, contas a pagar, chifre, excesso de telefone celular e internet, narguile, MTV e por aí vai. Estudos recentes comprovam que se não forem combatidas ou controladas, estas pragas podem trazer efeitos nocivos a saúde pública como: mudança de comportamento, neurose coletiva e em alguns casos mais graves a pessoa pode vir a ter ou levar outra a óbito.
Abaixo destacamos alguns tipos mais comuns de pragas urbanas e como tentar evitá-las:

Isoptera – mais conhecido como cupim, este costuma parar o carro sobre a faixa de pedestres em cruzamento de intenso movimento de pessoas a pé, estaciona o veículo atravessado em cima da calçada te obrigando a dar a volta pelo meio da rua e ser atropelado por uma moto. Para se prevenir deste inconveniente, saia de casa apenas aos domingos e feriados prolongados, eles costumam se deslocar para o litoral.
Periplaneta – nunca se sabe se ele (a) é macho ou fêmea, pinta os olhos com lápis preto, usa franja lambida na testa e piercing em tudo quanto é buraco do corpo. Geralmente são encontrados em: shoppings, estações de metrô ou em shows dessas bandas que tocam guitarra e cantam coisas melosas, também são conhecidas como baratas, para evitá-los é bom se disfarçar de João Gordo, elas têm medo.
Mus musculus – os ratos estão em toda parte, na Vinte e Cinco de Março, em ponto de ônibus ou espreitando nossas casas. Muito cuidado com eles e em casos de furto, roubo ou batida de carteira, reze três Pai-Nosso ou arrisque ir a uma delegacia e passar mais raiva ainda.
Formigas – andam em bandos fazendo algazarra e não sabem falar, só gritam. Não param de comer um só minuto, geralmente comem tudo o que contém açúcar, principalmente pirulito e chiclete. Se você encontra uma sozinha, ela é inofensiva, porém quando se junta com outras da mesma espécie, são insuportáveis! Também são encontradas em esconderijos e becos como shoppings, lan-hause e lanchonetes de fast-food. Por precaução, não freqüente estes locais.
Columba lívia – pombos adoram fazer sujeira, se está dentro de um ônibus, joga frasco, lata e papel de bala pela janela, andando pelas ruas e calçadões fazem a mesma coisa. Outro tipo mais avançado dessa espécie de praga costuma causar danos ainda maiores: depredação de patrimônio público, atos de vandalismo e pichações em paredes de propriedades privadas. A prevenção se dá por meio de medidas sócio educativas.
Aracnídeos – esta espécie parece ter oito patas, pois surgem do nada, agarram você pelo braço e querem ler a sua sorte na palma das mãos de qualquer jeito. Este tipo veste saias coloridas e tentam te convencer que podem prever o seu futuro e se você não der atenção te mandam praquele lugar e ainda rogam praga! Evite lugares como: praças, calçadões e ruas movimentadas no centro da cidade, pois sempre há algum nestes lugares.
Cigarras – podem causar perda de audição, infestam trens urbanos zoando de um lado para o outro tagarelando num ritmo alucinante, entregando papeizinhos e mostrando fotos de origem duvidosa, é a chamada miséria S/A que acabou de chegar. Na dúvida não dê dinheiro, eles podem ter um esquema mais lucrativo que o seu emprego por trás deles.

E tenha muita atenção, espécies indesejáveis podem ser evitadas tomando algumas medidas preventivas em casa, no trabalho e ambientes públicos, elas só precisam de comida, atenção e disciplina. Procure não utilizar produtos químicos, cuide das suas crianças e mantenha um ambiente de higiene espiritual. Lembre-se: as pragas são produtos do próprio homem, não dê pipoca aos pombos.

domingo, 2 de novembro de 2008

Ele está no meio de nós

Minhas mãos não são capazes de te deter,
O que eu não faço neste mundo pra poder te ter.
Que cada um o tenha na quantidade que merecer,
Sujo, suado, lavado ou colado com durex pra quem quiser ver.

Cigarros, carros, hotéis de luxo, itens caros.

Faça a guerra, compre a paz, cumpra acordos internacionais,
Quebre as bolsas, engorde os bolsos dos colarinhos brancos e dos marginais.
Saia do suor de alguém e encarne num pedaço de papel,
Você nasceu e cresceu, então multiplique-se, não é pecado, compre até o céu.

Iates, boates, mansões de condomínio, vidros raros.

Venha dos braços e das máquinas e gire o mundo,
Passe de mão em mão, torne sujo o que é limpo e sagrado o que é imundo.
Junto a ti terei muitos amigos, fica comigo, fica...
Tudo em torno de você, você permeando tudo, traga o que é bom e provoque a ira.

Viagens, massagens, rolex, cruzeiros.

Então fique feliz, eu te amo, a Adriane te ama, todos te querem.
De plástico, em débitos, créditos, virtual ou rígido como cobre, não deixarei que te levem.
Faremos de tudo em sua busca desenfreada,
Às favas os brios e a lucidez, passaremos a vida inteira nesta árdua jornada.

Venha de onde vier, do jeito que vier,
Traga o que trouxer,
Aqui estamos às suas ordens, trabalhando, pedindo, roubando,
sempre famintos...

Inspirado no som "Você" da banda Dead Fish.
Imagem retirada de lojakings.com "propaganda gratuíta"

sábado, 1 de novembro de 2008

Veneno

Então o chamaram e com olhares carniceiros, começaram a rodeá-lo e de um jeito bem provocativo: “Chamamos o senhor por que é sensato e nunca seria capaz de cometer injustiças! Também sabemos que jamais seria capaz de condenar uma pessoa por qualquer motivo, sempre prega o dom de perdoar” – estavam experimentando aquele homem para ver se ele ficava apurado – “o que tem a dizer sobre o caso?”. Apontavam uma mulher de cabeça baixa e diziam que era infiel ao marido, levava uma vida impura. Todos já munidos de pedras nas mãos esperavam uma resposta - “agora queremos ver o que vai fazer pra sair dessa” - olhando a situação vitoriosos. Por um lado o “juiz” não poderia defender alguém que vivia em pecado, por outro, se condenasse a pobre diaba ao apedrejamento derrubaria por terra seu ministério em defesa do perdão. Foi aí que agachou, ficou um tempo em silêncio, rabiscou o chão, olhou para o céu e com toda calma do mundo respondeu: “Aquele que aqui estiver livre de pecado que atire a primeira pedra”. Em questão de minutos a multidão se desfez, saindo um a um procurando mais o que fazer.

                                                   ***

Numa tomada externa o repórter pára uma transeunte e pergunta sobre a sua opção – era antevéspera de eleição e só se falava nisso -, a mulher num misto de distanciamento, ignorância e esperança respondera que na hora em que fosse votar escolheria um candidato, pois ainda não conhecia nenhum. Direto do estúdio o âncora acrescentava didaticamente que o povo brasileiro deveria se atentar mais à questão e voltando para a imagem da rua daquela periferia próxima ao quinto dos infernos, o repórter num surto criativo pergunta se a vida naquele lugar é boa e o que a distinta senhora espera do próximo prefeito. Ajeitando a criança catarrenta no colo, a mulher responde que “os político devia olhá mais pro povo e aqui, a gente é pobre mais é feliz”. Num tom emotivo o experiente apresentador emenda: “Aí está a imagem do povo brasileiro. Que garra tem esse povo sofrido! Ta aí a lição de vida que devemos tirar de nós mesmos todos os dias, apesar do sofrimento essa gente ainda consegue ser feliz, a gente reclama do que? ... E depois do intervalo: as expectativas dos comerciantes de shoppings para as vendas de fim de ano, a estimativa é de um novo recorde, é já já...”

                                                    ***

Sobre a mesa do professor descansava a última edição daquela revista de circulação nacional com sua famosa seção de páginas amarelas e ele muito convicto xingava o governo, as igrejas, o modo de produção vigente, bradava retumbante. Pleno de toda razão discursava a favor dos desfavorecidos pela ditadura da disparidade social, citava pensadores importantes, frases de impacto moral e vetava as escolhas de seus ouvintes. De meia em meia hora o vazio emocional dos alunos era quebrado pelas badaladas do sino da Igreja da Matriz que ficava na praça em frente à escola. De dez em dez minutos a verborragia inflamada do mestre era obliterada pelos toques de celulares que soavam as mais extravagantes e alegres canções eletrônicas. De cinco em cinco minutos o ar da sala de aula se tornava ainda mais denso com os bocejos rebeldes. Como num ciclo vicioso, a roda de palavras girava: esquerda, capital, direita, religião. A metralhadora do mestre ativara para todos os lados e em todas as direções, já não se sabia mais quem era o alvo ou a vítima de seus apontamentos, pois a razão que permeava o discurso ora preventivo, ora de reprovação crescia inexoravelmente em direções opostas. Criticava a opressão do trabalho, a repressão política e social e a submissão diante da religião. Olhou para o relógio de pulso, viu que o tempo expirava e ao toque do sinal indicando o fim do dia letivo, num tom de advertência, despediu-se dos ouvintes: “Agora vocês estão liberados”. Na manhã seguinte, ao entrar na sala de aula ainda vazia, em letras impregnadas de muita vida, observou que no quadro de giz estava escrito: “ABAIXO A DITADURA DO PENSAMENTO!”.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Um menino que era o menino

Agora o menino já não chama mais pelos amigos nem fica intrigado com as coisas difíceis de se entender do mundo. Estava tão perto do início e tão longe do fim, mas um atalho surgiu e encurtou seu caminho. Como num filme desses que a gente nunca esquece, bicicletas, a violência, o afeto e família grande, o menino não pára, pois a curiosidade não acaba e o que se tem a aprender parece gigante.
Um menino que queria ser “o menino”, poucos perceberam, e a seu modo conseguia conquistar atenção. Muitos vieram antes dele, muitos ainda virão, mas nenhum sonhará o que ele sonhou, buscará o que ele buscou, irá chorar ou sorrir pelos mesmos motivos, nem deixará o que ele deixou. O menino não chegará a ser gente grande pra entender as dores do mundo, então eternamente menino, pelo menos na lembrança, vive em cores, fotografias e naquilo que aprendeu. Em sua missão de aprendiz descobrira a tempo de mostrar a todos que a cada dia que nasce, existe uma nova chance de tentarmos ser uma pessoa melhor! O esforço é diário, a tarefa é árdua e a lição inesquecível.
Então que viva o menino, que partiu de um lugar qualquer do meio do mundo, mundo que parecia tão grande e tão confuso e agora não é mais que uma simples bola, como aquela que gostava de brincar. O menino dentro de cada um de nós mais cedo ou mais tarde partirá, ainda que em vida, consumido pela obrigação diária de ser adulto, sério e preocupado com o que parece importante. E assim segue o menino sendo sempre criança, o caminho das nuvens acaba de encontrar.

Para Lucas Vinícius.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Sobre o inusitado

O espetáculo mais interessante de se ver é o comportamento das pessoas diante daquilo que não conseguem explicar, o intransponível, como aqueles sonhos esquisitos que a gente tem de vez em quando, onde você está falando com uma pessoa e de repente já não é mais aquela pessoa ou quando você está num determinado lugar e no meio do sonho já está em outro e ao acordar não sabe contar o sonho que teve, pois não é plausível do ponto de vista daquilo que se tem como parâmetro na “vida de acordado”. Inusitado, ultimamente essa expressão tem sido recorrente nas minhas falas e me persegue. Sem recorrer a dicionário pra saber o que quer dizer, nem querer dar uma de intelectual esmiuçando a etimologia da palavra, ela é interessante do ponto de vista daquilo que não sabemos explicar, o diferente, o inesperado.

Tenho me divertido bastante às custas das pessoas que estão ao meu redor, quando ocorrem situações “inusitadas”. Vou tentar exemplificar: adoro alguns textos de Gabriel García Márquez e do Kafka, o tal realismo fantástico que deixa qualquer um incrédulo, mas convencido ao mesmo tempo, justamente porque parece não fazer sentido e não adianta botar questionamentos, é aquilo e acabou. Eu me divirto por que sou um bom admirador de comportamentos e atitudes e nada mais engraçado que a reação das pessoas diante daquilo que não sabem direito do que se trata. A própria história do mundo é feita de ações das pessoas tentando explicar ou dar sentido para aquilo que ainda não sabem o que é, caso contrário o homem não teria saído de sua forma mais primitiva de pensamento.

Um exemplo bem legal disso que estou tentando falar é muito bem representado naquele filme “Guerra dos Mundos” nas primeiras cenas (a dos raios que caem do céu e o chão que treme e começa a rachar), um verdadeiro corre-corre e os personagens não sabem nem do que estão correndo, também não sabem explicar o que está acontecendo - críticas negativas á parte sobre o filme - é interessante ver o desespero humano em situações fora dos padrões da realidade. Tudo é sempre muito racional, tudo é muito previsível, as coisas sempre tem que ter um rótulo, bula ou legenda que explique e temos explicação para tudo, porém diante do inesperado as pessoas por mais inteligentes que sejam, agem como formigas depois que você pisa no formigueiro, não sabem pra onde ir, perdem o rumo e isso é engraçado. Não sou sarcástico, nem “sarrista” de ver pessoas em situações embaraçosas, só acho que isso é importante para tira-las do comodismo. O interessante não é ver algo chocar as pessoas, mas desestabilizar as crenças, levar as pessoas a tentar pensar naquilo que não dá pra pensar porque não encontra modelo na nossa limitada experiência.

Preciso também dizer que artista, pra mim, eram os pintores renascentistas. Essa coisa de arte pós-moderna, surreal, abstrata eu descarto totalmente e não mudo de idéia. Alguns “artistas” tentam causar espanto, reflexão, polêmica e discussão com “obras” idiotas e isso pra mim não passa de lixo. Visitei uma famosa galeria de arte no centro de São Paulo, havia um salão enorme e limpíssimo, com paredes altíssimas e lá no centro do ambiente: uma caixa com pregos. Era uma “obra de arte”! Coisas desse tipo servem apenas para subestimar a inteligência das pessoas – outra expressão que tenho utilizado bastante ultimamente - e quando falo do inesperado, do inusitado, não me refiro à coisas desse tipo. Retorno á idéia de comportamento e de estupidez humana que sempre sabe o que está por vir, porém quando se depara com algo “diferente” – vamos dizer assim – perde o rumo e faz cara de “o que se passa?”.

Diante do inusitado as pessoas não riem, porque o inusitado não é engraçado, ele deixa as pessoas inseguras, sem saber o que pensar, sem opinião, sem julgamento, medo. E de pensar que toda essa minha alegria começou ao ver a perplexidade das pessoas diante de uma situação corriqueira, porém não óbvia, mas fora dos padrões e inesperada que aconteceu a pouco. Isso é bom, pois desequilibra os conceitos e modelos pré-estabelecidos e leva as pessoas a indagar, ainda que não saibam direito o porquê de estarem perguntando ou se terá uma resposta plausível e satisfatória. Indagar ajuda a “crescer a inteligência”. O inusitado não é aquilo que choca gratuitamente, mas aquilo que confunde. Quanto à tal situação que ocorreu... isso não tem importância, em algum momento de nossas vidas vamos nos deparar com alguma. Preste atenção: “ninguém vai entender nada”.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O homem que anunciava

O homem de terno um pouco velho atentava, porém ninguém lhe dava ouvidos. Já esgotado da caminhada de porta em porta, trem em trem, resolveu parar no meio da praça, sacou um livrinho de capa preta e sobre um caixote de madeira, tudo muito improvisado, esgoelava-se dizendo que "Ele" logo iria chegar e que o Dia do Juízo Final já estava dando sinais de sua iminente e impiedosa aurora. Seu terno um pouco velho, amarrotado e suado arrancava risos contidos, olhares curiosos e muita bronca, pois era dia quente, hora de batente, a praça cheia e o homem anunciava.
E o homem não desanimava, há tempos que batendo em portas, tocando campainhas e pedindo um minutinho de atenção não conseguia crédito, então deixava apenas folhetos convidando para uma sessão. Certa vez anunciava do alto de um viaduto, outrora resolveu palestrar dentro de um ônibus, a praça era o principal trunfo.
Pois é, sabedoria para os homens, loucura para Deus, e o homem anunciava. Um grupo de jovens rebeldes e moderninhos que passava tirava uma com a cara do homem, eles gritavam “Aleluia!”. A mulher gorda, cheia de sacolas debaixo do braço, arrastando um rebento, puxava o menino como se quisesse protege-lo da loucura do homem. Senhoras idosas passavam e balançavam suas cabeças em sinal negativo com olhar de compaixão. Um casal cochichava, talvez não eram crentes, ou seriam católicos não praticantes, algo muito comum naquela cidade. A multidão seguia apressada de um lado para o outro numa desorganização organizada, era hora de almoço, de compra e de levar criança pro colégio. Um sociólogo materialista dialético também por ali passava e através de seus óculos analisava “aí está a mais verdadeira prova da alienação”. O bêbado equilibrista nada entendia, pois pra ele tanto faz, o céu no chão ou o chão no céu, nem ele se dava conta de onde estava pisando. Outros homens de terno passavam apressados, porém estes portavam pastas e crachás, e como tempo é dinheiro, pouco se importavam se o homem anunciava marcianos ou algum ídolo estrangeiro. Tanta gente passando e o homem gritando, tarefa mais difícil que a de vendedor é a de mensageiro, mas insistia que aquilo sobre o qual discorria estava mais próximo do que todos pudessem imaginar.

Deram duas horas da tarde, duas e meia, três, quatro e por volta das quatro e quinze, ali mesmo na praça movimentada algo inusitado parecia que ia acontecer. Acontece que o homem se calou, as nuvens numa dinâmica incrível faziam ciranda no céu em formato de redemoinho e o sol lançou violenta luz que parecia cegar a todos. As pessoas pareciam atordoadas, paravam petrificadas e ao olharem para cima: nem medo, nem coragem, nem tristeza, nem alegria, nem desespero, nem conforto, nem arrependimento, nem esperança. Êxtase. Acompanhado por um monstro de sete cabeças com o número 666 tatuado na cauda e algumas criaturinhas muito bonitas com asas nas costas, Jesus Cristo em carne e osso desceu sobre a praça e a julgar pelo seu olhar, muita coisa estava por vir. Aquilo tudo era simplesmente fantástico.
Imagem: Raimundo de Oliveira (1930-1966), "Ascensão de Jesus", 1958. wwwarteeventos.com.br.

sábado, 12 de julho de 2008

Síndrome de Minduim

Puxa, além de ser desprezado pela Garotinha Ruiva e de ter um cachorro mais esperto que eu, ainda não descobri como se faz para chegar lá. Eu tento, tento, mas não consigo! Penso que deve ter algo de errado comigo ou que algumas coisas não são para todos. Quero ser como aquele empresário: tudo que ele toca vira ouro. Já pensou? Poderia batizar minhas empresas com nomes terminados em “X” , como símbolo da multiplicação dos lucros, entrar no rancking dos brasileiros bilionários na revista Forbes – aquela que apontou o Brasil como um país que dobrou o número de bilionários em apenas um ano, só eu não entro pra lista, e também não tenho nenhum amigo ou conhecido nela, você tem?- ter uma fortuna avaliada em US$16 bilhões... nem sei quanto é isso, meu cérebro não consegue processar tantos dígitos, não sei nem fazer conta do troco do pão, mas é algo como o dezesseis mais três casas com três zeros cada a direita, imagine isso na forma numérica 16.000.000.000 depois tente converter para o valor em reais e... nossa! Não é à toa que a operação da Polícia Federal que investiga suposto caso de sonegação fiscal e multas ambientais nas empresas daquele senhor, batizou a ação de “Operação Toque de Midas”. Mas também, deve ser difícil administrar tanto dinheiro, “alguma coisinha” sempre escapa mesmo. Quem sabe um dia eu não chego lá... casar com a Luma de Oliveira, Empresas LFX. Aliás, você sabe o que é uma licitação? “Ei ke” um dia eu chego lá!
E por falar em operações policiais com nomes engraçados, o ex-prefeito junto ao banqueiro e o investidor estão livres de novo! Tomai este corpo. O meu ficaria preso, pois não tenho a mesma “sorte” que eles, até meu cão tem mais sorte que eu. Falo de sorte porque um famoso jurista em depoimento especial sobre o caso (juristas = pessoas graduadas que são especialistas e produzem obras de conhecimento científico na área do Direito, bem como também os magistrados) disse que nosso país é justo, depois de alguns flashes de pessoas comuns na rua dizendo que a justiça não é igual para todos e que só funciona para os pobres que roubam pote de manteiga, ele disse que aqueles que contratam bons advogados conseguem um “tomai este corpo” enquanto outros apelam para advogados que não se dedicam integralmente ao caso, por isso ficam na cadeia. Concordo com o doutor e acho que está corretíssimo, e isso se chama viver em um país democrático, só faltou mencionar o poder de compra para se contratar serviços de advogados como os que servem aos três senhores presos na “Operação Satiagraha”, por exemplo. Ainda chego lá, vou aprontar bastante e um dia a justiça será igual pra mim também, afinal ela não é cega? Que peninha de mim! Pois é, nem a justiça parece justa, mas confio nos juristas e nos senhores de notável saber jurídico, profissionais de direito, que a reforma do Código Penal brasileiro que está sendo discutida no Senado e que vai estudar sugestões da população possa realmente ouvir, escrever e considerar gente assim como eu, “mei cachorrim”, pra isso temos que latir bastante e fazer nossa parte. O código vigente já tem 66 anos, puxa! Muita coisa deve ter passado debaixo das saias da vovó sem ela se dar conta, já está caduca.
Pensando bem, só não quero ser como o outro Luiz Fernando, aquele da “orla da praia”. Sei que ele fez fortuna e até fez amizade com as Farc... uhul, que jóia! Mas a parte da cadeia não me agrada muito e neste caso prefiro continuar na vidinha de trabalho e casa, vendo os anos passarem de sete em sete, como o meu querido cãozinho, vai que de repente eu precisasse fazer várias cirurgias plásticas pra ficar igual ao Fofão só pra fugir da polícia e tivesse meu patrimônio todo confiscado e vendido em bazar, inclusive a cueca e tudo. Assim não, igual a eles não. Ah, e eu que só queria que ela olhasse pra mim e desse pelo menos um tchau. Acho que ninguém tem dó de mim. Que puxa!

Texto “incidental” Amendoim , John Ulhoa.



quarta-feira, 9 de julho de 2008

Se não mata...

“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, assim termina a obra clássica de George Orwell A Revolução dos Bichos e subvertendo o real significado dessa frase - quem leu sabe - aposto aqui na aplicação ao pé da letra na caracterização dos hábitos cotidianos de muitas pessoas que conhecemos e convivemos. Sim, estou me referindo à falta de higiene ou de preocupação com ela. Fico às vezes pensando, qual será a dificuldade que as pessoas têm em deixar os lugares por onde passam do mesmo jeito que encontraram?
Fui a uma assembléia - manifestação da elite intelectual do nosso país na encarnação real e concreta da luta de classes -, na última sexta-feira e fiquei indignado, nem tanto com a posição assumida pelos contestadores no momento de votação, mas com as atitudes desses que promovem a cultura e educação no país. Minutos depois de terminada a apelação naquela famosa praça do centro de São Paulo, passei novamente no local junto com um camarada, procurávamos ônibus, e parecia ter ocorrido uma guerra campal ou tragédia sísmica no lugar, me refiro à sujeira mesmo, à quantidade de restos de comida, papel, garrafas pet, latinhas e coisas que nem valem a pena mencionar. Pensei que tudo aquilo ali não era necessário, e não era.

Já reparou como fica uma sala de cinema depois que termina a sessão? As salas de aula depois das aulas? A praça de alimentação do shopping a cada rodada de pessoas que por ela passam? E a sua casa depois do churrasco? Nem ônibus escapa ao rastro imundo por “nós” deixado. Tudo bem, é impossível ser feliz sem modificar o ambiente onde convivemos, concordo também que a desorganização faz parte da criação, mas e a sujeira pode ou não ser evitada? E o mais curioso é que todo mundo reclama da sujeira nos lugares públicos, diz que “ninguém respeita os ambientes de convivência e as pessoas não têm cuidado com a nossa cidade”, mas quem são essas pessoas que não têm zelo? Você? Eu? Quem? E o fala-fala em épocas de enchente que “as pessoas jogam lixo nas ruas e entopem bueiros”, nunca ninguém faz isso, é sempre os outros.

Todo mundo olha de cima e torce o nariz ao escolher um lugar para fazer uma refeição quando está na rua e sempre ouço a frase “só vou comer onde for limpinho”, no entanto essas mesmas pessoas, vindas da rua, ao entrar nos estabelecimentos escolhidos a dedo pra poder comer, se quer lavam as mãos pra se sentar à mesa do restaurante ou lanchonete. Andar de ônibus pra mim é uma verdadeira prova de fogo, pois não adianta tomar banho antes de sair de casa, fatalmente você sairá imundo e cheirando até o que nem imagina. Acho um absurdo que ás seis horas da manhã alguém já esteja cheirando sovaco e o pior é que tem, quem pega ônibus ou trem em horário de rush sabe. Infelizmente não estamos utilizando os cerca de quatro milhões de anos de evolução e conhecimentos acumulados ao longo da nossa história. Ironicamente a escova de dente foi considerada uma das invenções humanas mais importantes da história numa dessas pesquisas à moda revista de curiosidades e, no entanto muitos podem, conhecem, mas não fazem uso. Porém, os campeões no quesito falta de higiene ainda são os fumantes. Se eu for comentar aqui, precisarei de um texto de cem páginas só pra fazer uma introdução, mas é outro problema que somos obrigados a aceitar como normal nos “espaços-convivência”. Apagar bituca em copo ou prato, jogar bituca no chão, poluir o ar já tão poluído com aquela fedentina toda. Vejo pessoas de manhãzinha saírem de casa de cabelo molhado e empestiadas de perfume, mas o cigarrão aceso e enfumaçando a roupa e o corpo todo.

Neuroses à parte, lembrei daquelas reportagens que mostram criação intensiva de porcos para exportação de bisteca, quem disse que os porcos de hoje em dia são porcos? Eles comem ração, vivem em chiqueiros mais limpos que muitos espaços onde passamos a maior parte do dia, tomam vacina e o melhor de tudo: tomam banho de hora em hora. Prova disso é que quase não há mais aquelas doenças transmitidas pela carne de porco, pelo menos se for de boa procedência. Mas e as pessoas? Aquelas pessoas que não são você, nem eu e nem ninguém, aquela que você acabou de apertar a mão, por exemplo, será que tem boa procedência? Falei.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vê se me ouve

“A diretora da escola disse que a mãe dele contou que ele só fica no quarto ouvindo essas bandas de rock que têm esses vocalistas gays e que as paredes são cheias desses pôsteres com caveiras. Disse também que foi um sacrifício pra ele cortar aquele cabelo comprido que usava. Imagine só! Até parece que nessa idade vocês já sabem de alguma coisa. Pode fazer cara feia, você não vai.

Viu só aquele negócio que ele tava usando no nariz? E dizem que ele começou assim como você está fazendo agora. Eu já não sei mais o que faço com você. ‘Oh, meu Pai dai-me um auxílio’. Eu fui criada sem religião, mas tive educação e agora que chegou a hora de educar o meu filho eu não consigo, eu não consigo! Esse menino nunca ouve o que eu digo...

Como assim, o que eu estou fazendo?! Você sabe que quando eu fico nervosa eu preciso acender um cigarro. Ah, não pedi sua opinião, o dinheiro é meu e eu faço o que eu quero, não comprei o cigarro com seu dinheiro e quem trabalha aqui sou eu. E tem mais, se algum dia eu te pegar cheirando maconha, você vai levar uns cascudos até dizer chega, aqui nessa casa não entra droga. Opa! Não responda enquanto eu estou falando com você. O que foi que você aprontou dessa vez? Fala. O gato comeu a sua língua por acaso? Seu ‘malcriado’. Já falei que você não vai e ponto final.

Sabe que não te reconheço? A quem será que puxou? Sempre teve de tudo: carrinhos caros, bicicleta, videogame, tênis de marca e mais um monte de coisas que eu comprei. Será que faltou alguma coisa? Seu ‘mal educado’. É isso que dá andar com más companhias. Você não tem maturidade mesmo. Vai acabar ficando igual à ele, por isso você não vai e estamos conversados.

Olha, eu estou muito decepcionada com você. O que você vai ser no futuro? Isso não dá futuro pra ninguém. Eu sei o que estou falando. Eu nasci há quarenta anos atrás e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais. Já está todo mundo cochichando na vizinhança. Daqui a pouco vão dizer que você é uma má influência pras outras crianças! Pode tirar essa camiseta e desfazer essa cara amarrada, você não vai... não vai mesmo. Amanhã é dia 23, são oito dias para o fim do mês e se você insistir nessa teimosia eu corto sua mesada. Pode chorar, pode se ajoelhar e até me implorar um beijo, mas não vou te perdoar. 


Então... passe isso pra cá, você não vai ficar com isso aqui em casa. Dá meia volta e vá direto para o seu quarto! E pra terminar essa conversa eu vou repetir em letras maiúsculas: VOCÊ NÃO VAI ficar com esse Revolver.”

PS: Revolver é um álbum da banda The Beatles de 1966. Salve Rubinho Troll!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Atitude Marginal

Hoje resolvi ter uma atitude marginal. Saí de casa e a primeira coisa que fiz foi pegar um ramalhete gigantesco de flores para sair distribuindo aleatoriamente. Quem cruzar o meu caminho corre o risco de levar um entusiasmado aperto de mãos e não se espante se de repente um estranho no meio da rua vir em sua direção de braços abertos, pode ser que seja eu querendo lhe dar um caloroso abraço. Hoje quero estar a margem dessa sociedade, direi muitos “obrigados”, “me desculpe”, “por favor”, “eu preciso de você” e se tentarem me tirar do sério, juro que vou tentar considerar o ponto de vista de quem o fez. Vou ficar à margem dos desafetos, do medo do outro, do distanciamento entre as pessoas, da injúria, do individualismo exacerbado, do egocentrismo, do egoísmo e das injustiças.

Hoje serei um marginal no lugar onde vivo, vou ouvir boa música, ler - de preferência bons livros -, usarei vocabulário refinado, não quero proferir baixarias, vou selecionar o que passar na televisão, darei importância a tudo que puder acrescentar algo de bom e humano à minha cultura. Pretendo recolher o lixo que eu produzir, separando-o para reciclagem, usarei apenas o necessário para sobreviver.

Nessa atitude marginal, vou fazer diferente do que já fiz, sairei pelas ruas observando tudo, cumprimentando a todos, prestando atenção no que diz aquele monte placas, tentando ouvir pássaros, admirar jardins e árvores, ver as cores das roupas das pessoas, “ver as pessoas”. Serei gentil com o balconista da padaria, com o cobrador de ônibus, pegarei todos os panfletos que cruzarem meu caminho e prometo ler um a um, se me pedirem um minutinho de minha atenção, não terei pressa, nem compromisso importante naquele momento.

Estou cansado do habitual, vou cometer infrações como respeitar a faixa de pedestres, não jogar papel de bala no chão, deixar que os não-fumantes respirem ar puro, aguardar meu momento de ser atendido nas filas, desligarei meu celular em lugares que carecem de silêncio, vou ouvir o que o outro tem a dizer, falarei mais baixo. Se a imagem e a aparência quiserem falar mais alto, prometo que vendarei meus olhos para que desapareça toda a diferença, discriminação, cores desarmônicas, e o que for feio poderá ser belo e vice-versa, deixarei o coração dominar a razão.

Quero me tornar um marginal, fazer diferente daquilo que nos faz tão mal, respeitarei o meu vizinho, guardarei o impulso emocional das partidas de futebol para tomar partido do que é injusto em meu país, vou ignorar o carnaval, respeitar as mulheres como se fossem mulheres, tratar as crianças como se fossem simplesmente crianças, valorizar os velhos como se fossem jovens e deixar transparecer minha boa educação.

Hoje terei uma atitude marginal, falem bem ou falem mal, vou por aí cometendo esses delitos, sei que muitos ficarão boquiabertos de testemunhar tal impertinência, e no meu comportamento estranho, fora dos padrões de nossa realidade, serei considerado doente, louco, perigoso e fatalmente feliz.
Imagem retirada do site http://www.fotoplatforma.pl

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Trem

Passar, sei que ainda não passou.
Ir, sei também que ainda não foi.
Ficar, sei que ele não ficará
mais neste lugar.
Neste lugar
passa um trem
pros lados de lá.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

"Gilete"

_ Alô?
_ Oi! Estou te interrompendo?
_ É... não sei._Que voz é essa? Algo de errado?
_ Talvez, ... acho que não.
_ Sabe que hoje lembrei de você, não sei mas... acho que sonhei com você e... não lembro direito como foi o sonho, então lembrei que faz tanto tempo que a gente não conversa e estou te ligando pra saber como você está!
_ Que bom._ Sei não, mas sua voz está tão estranha! Poderia jurar, mesmo sem poder te ver, que é quase um pedido de ajuda. Mas, ... olha, hoje tive um dia tão cheio, estava tão cansado de tudo e a cabeça cheia de idéias ruins. Quando voltava pra casa em meu carro... sinceramente pensei em joga-lo em cima dum poste qualquer e fazer uma bobagem, foi quando começou a tocar uma canção no rádio e me fez mudar de idéia. Cara, parece até que foi providencial começar a tocar aquela canção bem naquela hora! Para-nã-nã, lá-lá-lá... nem lembrava mais dela.
_ É verdade, essa música é velha mesmo, nem eu lembrava mais dela também.
_ E aí? Algo novo pra contar?
_ Sei lá.
_ Mas... voltando à música, eu lembrei aquela vez em que a gente quase se meteu numa confusão por causa daquela garota que você cismou de dar em cima lá na Galeria e ela tava acompanhada por aqueles caras esquisitos com corrente saindo do nariz e entrando pela orelha he he! Achei que a gente fosse apanhar aquele dia. Fecharam o cerco mas tivemos a sorte de cruzar com os guardas e...
_ É mesmo, eu lembro também! E tava tocando essa música quando a gente já estava no ônibus vindo embora e as pessoas olhavam pra gente com curiosidade, só por que entramos correndo nele já em movimento.
_ Cada uma que a gente aprontava! Nossa! Lembra quando dava aqueles cinco minutos de revolta lá na empresa em que a gente trabalhava? A gente combinava de pedir as contas e na hora que chegava na sala do chefe, perdia a coragem, inventava uma desculpa qualquer e voltava ao trabalho he, he!  ... aquele cara era um filho da puta.
_ É verdade cara, a gente era muito bobo e sem noção. Nada como o tempo pra trazer consternação.
_ Lembro também de quando a gente era criança, éramos felizes e não sabíamos. Frase mais clichê essa, mas é verdade. AH! Agora vai cara, eu e minha namorada marcamos o casamento pro final do ano. Agora não tem jeito e você vai ser nosso padrinho hein?!
_ Pode ser._ E você vai mesmo casar ano que vem e morar naquela cidade lá não sei onde?
_ Não. Nem vou casar, nem vou mudar.
_ Que isso cara? O que acontece aí?
_ Sei lá. Estou desistindo de quase tudo._ Mas... aquele projeto pro ano que vem ainda ta de pé?
_ Vamos ver.
_ Hei cara tenho um convite pra te fazer, é pra esse fim de semana. A gente lá do... peraí... ce tá muito ocupado? Faz tempo que não te vejo, posso ir até aí falar com você de tudo o que a gente aqui está combinando?
_ Pode. Estou aqui, desce aí.Dois minutos depois...
_Olá! Tudo certo aí cara? Quanto tempo! Nem parece que a gente mora no mesmo prédio.
_ Tudo certo. Agora estou melhor, estava preparando um lance aí, mas não era importante.
_ Sua cara não nega o cansaço, mas esse sorriso é do bom e velho camarada.
_Também, com essas coisas que você me lembrou por telefone, só rindo mesmo. Entra aí.
_ Dia longo esse. Mas, ... o que essa gilete está fazendo aí em cima da mesinha da sala?
_ Nada não. Até esqueci o que ia fazer quando fui atender ao telefone._ Que estranho, nem de fazer a barba você gosta, e sempre preferiu barbeador elétrico.
_ Acho que era algo sem importância. Sei lá, às vezes a gente muda de idéia...


Imagem: capa de "Unknow Pleasures", 1979 do Joy Division. Tudo a ver né?
Gillette aqui foi utilizada com um "T" e um "L" como "nome da coisa" e não a marca.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Tenha uma ótima noite!

Dizem que a gente não presta atenção naquilo que deveria e se prende a bobagens, mas não tem como não reparar no procedimento padrão de apresentadores de telejornal. Chega a ser até meio clichê, mas é sempre a mesma coisa. Uma apresentadora da “Grobo” , muito bonita, mas muito afetada, na minha opinião – não estou falando da Fátima, pois dessa eu gosto – é um exemplo de âncora feminino que virou modelo pra uma grande parcela de apresentadoras de outros canais “menores” - principalmente no “SBesTeira Imitation” – aquele jeito robotizado de mexer a cabeça como passarinho em gaiola e as piscadinhas rápidas de olhos, quando dá notícia séria. Chega a ficar artificial na tela, dentre as rápidas mudanças de notícia, do desastre na China à alegria nas ruas de Salvador, elas mudam dramaturgicamente a expressão facial e a entonação de voz, e ainda por cima, logo após dar a última notícia do dia sobre acidente aéreo catastrófico com direito a flashs ao vivo do local do acidente, abrem um enorme sorriso e dizem: “Tenha uma ótima noite!”
Já reparou naquela mãozinha, uma sobre a outra, sobre a bancada e o jeito anasalado de falar? Não que eu ache que elas devam dar todas as notícias da mesma maneira, mas é o modelo mesmo, já está bem saturado. E quando o jornal é apresentado em dupla, e ao final de cada matéria apresentada, um olha pro outro e faz comentários sem profundidade, só pra fingir que é jornalismo de opinião? Teve uma época que isso até virou moda. Eu gosto mesmo é da apresentadora Maria Lídia que realmente é original, tem opinião – muitas vezes divergente da minha – pois ela sabe o que falar, o que perguntar e argumenta seja lá qual for o assunto, e não segue os tais clichês à moda EUA. Voltando às apresentadoras-padrão, aquelas com massa corrida na cara, elas não se enganam nunca, a menos que dê defeito no tele-pronter, provavelmente fizeram um bom curso de orartória e sem titubear vão que vão.

Comentários mais inúteis esses que estou fazendo! Mas um pouco de açúcar de vez em quando é bom, a gente se diverte mesmo assistindo à jornais. E por falar em jornal que só dá más notícias, detesto quando passa notícia de miséria, fome e sofrimento e alguém vem me falar: “tá vendo? Tem gente em situação pior que a sua”. Eu lá quero saber de quem ta em situação pior! Se estou com problemas eu procuro olhar pra quem ta em situação melhor, e se ficar procurando quem está mais ferrado que eu, aí que vou ficar mal mesmo. As pessoas insistem na terapia do “olhe pra trás”. Que gente mais conformada essa! Filosofia da humildade pra cima de mim?! Nem Jesus gostava de miséria, tanto é que multiplicou os pães e transformou a água em vinho.

Agora, a melhor parte de qualquer telejornal é a previsão do tempo, aparece sempre uma moça bonita num fundo computadorizado e o texto é sempre o mesmo “uma área de instabilidade avança...” arf! É difícil. Ler notícia ao vivo em cadeia nacional não deve ser fácil, não pode tossir, espirrar, se embananar e nem pei... ôps! Desculpa, não resisti! Mas é um ofício que dá status à pessoa, um jornalista de tv sempre acaba virando celebridade. A Lilian Witfi... sei lá como se escreve foi bem original quando caiu na gargalhada ao dar uma notícia sobre Viagra, eu gostei. Segundo minha sobrinha, a Bernardes foi fazer uma tomada externa ao vivo e quando entrou no ar, ela estava penteando os cabelos, não sei se é verdade, mas se isso aconteceu infelizmente eu perdi, não gosto da linha editorial da emissora, mas acho a jornalista simpática e competente, dentro daquilo que o canal se propõe a fazer com o povo brasileiro. Telejornal ainda é meu programa de tv favorito. Então: terninho com ombreiras a postos, cabelinho laqueado, figurantes ao fundo fingindo mexer em computadores e ação!!!!! Reality show.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Sua Casa



Se quiser que Ele entre em sua casa,
ela deve estar limpa.
Todas as portas e janelas devem estar abertas
para que a luz possa entrar.
Casa vazia, morada do diabo.

Não importa se sua casa já está um pouco velha.
Alguém já teve sua casa destruída,
mas ela se refez.

O que você guarda no porão de sua casa?
Dizem que a "prata da casa" deve ser exposta
quando se tem visita.
Pra onde você varre a sujeira de sua casa?
Quanta porcaria já levou pra dentro de sua casa?

Dizem que em cada casa, um segredo.
Sempre há alguém querendo enxergar o que existe
além das paredes de sua casa e...
quando a casa cai, não há reforma que dê jeito.

A base de sua casa é forte?
Cuide de seu templo, sua casa é seu templo.
E não haverá terremoto capaz de derruba-la.
Só o tempo.

O que você guarda no porão de sua casa?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Quero ser Thom Yorke

A mesmice está em toda parte e todo mundo quer ser diferente, ninguém gosta de ser igual, mas também ninguém quer chamar muito a atenção, ou... quase ninguém. Não quero ser igual a eles, não quero ser igual a ninguém, mas se eu for muito diferente não vou ser aceito e desejarei ser simplesmente normal como as outras pessoas me parecem ser quando ando pelas ruas no meio da multidão.
Quem decide o que é normal? Há quem se esforce para ser diferente e existem aqueles que simplesmente são diferentes. Se eu for “do contra” serei diferente ou só mais um chato? Cada um tem a sua cota de pecado, um coração de pedra, amigos e amarguras. E o tempo ... esse é inimigo e não esquece as coisas do passado. Mas se você pudesse enxergar que até os monstros têm algo de bom pra dar, nunca mais daria atenção praquilo que se vê ou que se ouve falar, então ... guarde o que é seu.
É por isso que não se deve julgar alguém sem saber o que lhe vai na alma. O lado mais obscuro de qualquer ser, hipoteticamente doce, só se explicita em momentos de crise. Quem nunca desceu do céu? Quem nunca se surpreendeu ao perceber que é capaz daquilo que não julgava ser?
Eles agora pintam os olhos, furam o nariz, colocam correntes, mudam a cor do cabelo, desenham pelo corpo todo, rasgam o joelho da calça, zombam do que é mundano, tentam chocar. Todos riem, fumam, bebem, cospem e sacodem o corpo ao som de sucessos efêmeros e eu... eu acho isso tudo tão normal. A perfeição está em toda parte, eles querem ser Jesus, eles querem ser o Elvis, todos querem ser Alain Delon mas eu... but I’m a creep, I’m a weirdo , ainda bem! Sempre... sempre.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

À base de aspirina

Só mesmo à base de aspirina! Acordar cinco e meia da manhã de estomago virado, pescoço enrijecido e as pernas bambas, engolir café amargo, enfrentar chuveiro que não esquenta, sair correndo no sereno da manhã, subir morro e pegar ônibus lotado, motorista ta atrasado, sua cara enraivecida, não espera nem você subir e arranca como se tivesse indo tirar a mãe da guilhotina, cada curva é uma tortura, se segura ou voa pela janela, levanta logo e dá o sinal o ponto que eu ia descer já ficou pra trás. Só à aspirina! O “bom dia” entre dentes cerrados de quem quer puxar o seu tapete, as vozes que apertam mais que torniquetes seus tímpanos que já pedem um domingo, antes mesmo de iniciar a jornada da segunda, a missão de agarrar o touro pelos chifres, manter a postura diante do caos, mostrar serviço, me corrija se eu tiver errado, parece que ali aquele alguém calado, na verdade quer ver você se ferrar. O pior de tudo é o meio do dia, ce já ta quase morto e ainda não cumpriu nem metade, axilas molhadas e esqueça a vaidade, a barriga roncando e não sobra tempo nem pro xixi, ainda tem a segunda etapa, calor do Saara, e sapato apertado, não sou gigolô, mas um dia saio dessa vida! Só com muita aspirina! Cabeça fervendo, demandas chegando, o chefe balindo e o mundo acabando, se depender de mim to fora, se depender das minhas contas to dentro, o gosto de sapo é horrível, mas com um pouquinho de muita paciência dá, afinal se agüentastes até agora por que não agüentarias até o final do expediente ou mais quarenta anos até quando puder se aposentar? Só a base de aspirina! Morar em apartamento, dia e noite agüentar o tormento de quem não sabe o valor que o silêncio tem, alarme de carro disparado, caminhão de morango passando, a furadeira do vizinho que não quer cessar, criança chorando, pais resmungando e alguém que resolveu ouvir pagode e animar o condomínio todo. Ver as notícias do dia, saber que os juros vão aumentar pra conter a inflação provocada por aquele sonho a prestação que você estava certo de que iria comprar, ainda tem a dengue dando o maior perrengue, já pegou uns três que conheço se eu levar uma picada, nada de aspirina, nem Novalgina “em caso de suspeita de dengue, não utilize analgésicos”. Só mesmo com muita aspirina! A campainha tocando, a vizinha já entrando, folheto na mão, você com a cara desmanchando, “meu filho procure a Palavra, isso vai te ajudar”, o telefone que chama, eu só querendo ir pra cama, mas já são quase nove e ninguém merece discutir relação essa hora da noite com chamada via celular, depois da tormenta, lembrei de uma coisa! Preciso comer, só que tenho que correr, ainda não terminei de ler aquele livro que comecei, o concurso é semana que vem e ainda faltam uns seis pra analisar. O dia ainda nem terminou, aquele amigo ligou, lembro que tinha um recado pra dar, mas agora não vou lembrar, “depois te ligo tchau!”. Putz! Era só pra avisar que amanhã não vai dar, era pra eu ter feito hoje, acho que vou me lascar, mas antes de conseguir me deitar, dormir eu sei que a insônia não vai deixar, então eu lembro de tomar outra dose dessa maravilha, só que agora vou usar na forma de gotinhas 1, 2, 3..., “para uso adulto, quarenta gotas”, pois comprimido a essa hora até dá um jeito na enxaqueca, mas o estômago amanhã de manhã vai reclamar.

Cría cuervo ...


É assim que começa, ele pede e você dá, ela chora e você cede, você fala uma coisa e ouve três e ainda diz “que gracinha ela tem o gênio forte igual o da mamãe!”.

Tenho observado no cotidiano como aquele velho ditado "ser pai ou mãe é padecer no paraíso..." até convém, só que o paraíso fica por conta do rebento que não tem limites, faz o que quer, quando, na hora e no lugar que quer, pois viver assim sem ser contrariado é realmente um presente pra qualquer sujeito candidato a umbigo do mundo.


Solidariedade, altruísmo, compaixão, amor e respeito ao outro, reflexão e aceitar as diferenças são coisas que se aprende e se ensina também! É difícil introduzir certos valores nas crianças e adolescentes (principalmente na era da supercomunicação de massa) mas as “experiências vividas” ainda continuam, ao meu ver, a melhor maneira de se aprender quando o assunto é convivência. Se a criança não aprende a ser contrariada, a ouvir a palavra “não” de vez em quando e nunca se viu em uma situação onde tenha que repartir e ceder, como esperar desse indivíduo atitudes tão importantes como essas.
Os principais responsáveis por fazer os pequeninos vivenciarem essas experiências de vida são, sem dúvida nenhuma, os pais. O ambiente desse tipo de aprendizagem é o lar. Assim como a escola deve oferecer um ambiente propício para a construção de conhecimentos significativos acerca da riqueza histórico-cultural construída pela sociedade na qual a criança vive, para que esta dê continuidade àquilo que insistimos chamar de civilização, os pais, nossos primeiros professores, devem dar “oportunidade” aos filhos de aprenderem valores básicos como aqueles que tanto reclamamos por não presenciar mais com tanta freqüência hoje em dia.

A sociedade assiste horrorizada à episódios como o da loira que matou os pais a paulada naquele bairro chique de São Paulo, entre tantos outros casos que a opinião pública condena e o jornalismo sensacionalista em sua demagogia “cata-Ibope” reforça com protestos contra esse tipo de crime hediondo, mas... alguém já se perguntou se essas pessoas - como a loira assassina por exemplo - durante a vida ouviu algum “não” dos pais? Pois bem, no dia em que disseram “não, você não pode namorar fulano.”, ela deu o que como resposta aos pais? Não que esse tenha sido o único motivo do crime, certamente a fortuna pesou bastante (mais uma vez um valor que se sobrepôs a outros valores) e de modo algum quero justificar a atitude cruel daquela criatura, mas fica aí um exemplo concreto das possibilidades de se criar monstros quando o tempo, o trabalho, a vida corrida e a falta de um olhar mais atento dos pais sobre os filhos se tornam pretextos para nunca se dizer “não”.
É fato que existe o temor por parte dos pais em magoar os filhos com um “não” e que estes “cresçam revoltados”, e aqui cabe também aquela fala  muito comum  “...quando eu era pequeno eu não pude ter nada disso e agora vou fazer de tudo para que meus filhos tenham”, seja uma preocupação justificada, entretanto, o problema é quando esse esforço não vem acompanhado de ponderações e sensatez, pois os pais devem mesmo fazer de tudo que tiver ao seu alcance para dar o melhor aos filhos e isso inclui também dar “limites”, essa pode ser a maior prova de amor. Passar a mão na cabeça, fazer vistas grossas ou desprezar más atitudes dos filhos só colabora para que eles futuramente não tenham senso do que é justo, correto, razoável. Um mimo é sempre bom e quem não gosta? Contudo, mimar não é apenas presentear para compensar a ausência no dia-a-dia, muito menos dizer sim para tudo, só porque o pai passa pouco tempo com a criança e não quer contrariá-la. Se em casa a criança é o umbigo do mundo, mundo afora não será, e como ela irá reagir a um mundo que contraria, impõe regras e diz “não”?

O primeiro passo para a construção de um grande ser humano é faze-lo ver no próximo um outro ser humano, que sente as mesmas coisas que ele próprio sente. Adoro o título e a mensagem de uma música da banda gaúcha Nenhum de Nós: “Permitam que seus filhos aprendam a ter compaixão, ensinem os seus filhos, ensinem a ter compaixão.” É a lei da ação e reação (em cadeia). 

O causo do "tabuado" (Parte final)

Acontece que ao amanhecer, o rapaz encontrava-se novamente a sós com a velha naquela casa e ao perguntar sobre o jovem casal da noite anterior, a velha respondera que já haviam ido embora bem cedo, fato que poderia ser comum não fosse a proposta que veio logo em seguida, a decrépita senhora com sua alma caridosa sugeriu ao moço que ocupasse aquele quarto que o casal passara a noite, pois segundo ela, era o melhor e mais confortável da casa. Dizem que naquele tempo e nessas cidadezinhas do interior era comum pessoas andarem armadas (como se hoje fosse muito diferente!), o rapaz trazia em sua bagagem, além de mudas de roupa, uma companheira, daquelas que quando escreve por linhas retas, traz o inevitável, aquilo que não tem remédio, o que só Jesus voltou para contar.
A noite novamente envolvia cidade, gente e o que se sente. Chegada a hora de ir pra cama, o quarto misterioso estava ali inocente, refeito e chamando para um sono dos justos. Ao se deitar na cama, olhando para o teto com forro de madeira, o rapaz não conseguia pregar os olhos, a cabeça matutando o que se passara ali desde que chegou, as histórias, a velha, o casal, o teto de madeira, os ruídos estranhos na noite anterior, sua arma na mala, a mudança de quarto, a partida misteriosa e soturna do casal, a janela ao lado cama, o copo d’água, uma lamparina acesa a vagar na escuridão, o teto de madei... de súbito levantou da cama para poder abrir a janela e nesse lance de sorte sortuda ... craashbrunmm!
Ao voltar a cabeça pra ver o que foi aquele estrondo que quase lhe tirou o coração pela boca, viu o rapaz que sobre a cama jazia o enorme tabuado de madeira que ficava acima dela. Ao perceber a meia luz o vulto que vinha em sua direção, sem pensar duas vezes e em questão de segundos pegou sua arma ali no meio daquelas roupas na mala aberta e atirou. Matou a velha.
_ Pois bem, meu rapaz, depois dessa história que você acaba de me contar, não resta dúvida de que aquela senhora dava um fim em seus clientes.
_ E agora seu delegado, o que faço?
_ Já fez! Se toda história tem um desfecho, certamente acharemos o dinheiro e pertences que ela roubava dos hóspedes, assim como seus corpos ocultados em algum lugar daquela pensão. E se tem moral da história, nunca se deve falar mal de gente velha.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A corrente da mediocridade


Primeiro quero dar um “salve” para a democracia que afortunadamente impera em nossa terrinha, aqui temos o direito à liberdade! Você pode escolher entre ficar ou ir embora pra outro país, por isso mesmo muita gente vai e volta... As vezes com uma ajudinha da dupla Crivella e Costa, mas volta sim. Além disso, temos até o direito de escolher presidente da República, coisa que sabemos fazer com sabedoria, basta apertar algumas teclas e mais quatro anos de progresso e desenvolvimento social se desenha no horizonte, assim somos o quinto maior país do mundo em extensão territorial, o primeiro em futebol e o primeiro em sei lá mais o que. Quer mais?
A melhor coisa na vida em democracia é essa liberdade que se tem para juntar dinheiro, quem não tem é porque não soube juntar. Tem país por aí que a coisa é meio nivelada, tem que repartir tudo, que horror! Aqui cada um tem conforme os desígnios Divinos, se você cedo madruga, certamente ficará rico. Então vá lá, faça, conquiste, lute! Você vive num país onde se tem a liberdade para ficar rico, a não ser que prefira continuar pobre. Temos também liberdade de expressão de idéias! Comece a observar a quantidade de canais de televisão e a maneira como são bem utilizados para levar conhecimento à população. Manipulação de consciências aqui? Jamais. A “gracinha” da Hebe Camargo sabe disso, tanto que em seu programa (que ainda existe e passa em horário nobre) ela é aplaudida pela platéia – tão lúcida quanto a própria apresentadora – de cinco em cinco minutos durante seus sábios, bem fundamentados, profundos e críticos discursos. Diz ela estar “sempre do lado do povo”, algo do tipo mexeu com o povo, mexeu comigo, eu tenho o microfone. Pensando bem, é bom ter à nossa disposição uma variedade de jornais e revistas para contrapor pontos de vista, e como somos bem instruídos selecionamos sempre o melhor conteúdo, ou seja, aqueles que atualizam em primeira mão o troca troca de casais no mundo das celebridades. Às vezes é preciso uma leitura mais séria e para ter opinião, nada melhor que folhear aquelas revistas imparciais e descomprometidas que “abrem os olhos” do povo, então... veja! Aliás, vem aí a tv digital, qualidade total, só falta o conteúdo, mas isso, deixa que os Marinho resolvem.
Dá arrepios pensar em algum país onde não se possa comprar comida a vontade. Aqui a gente compra o quanto quiser e por isso somos um povo bem alimentado e o alimento da alma vem junto com o pacote se considerarmos a qualidade do ensino público fundamental. Em um país livre assim, todo mundo quer viver, quem vem não quer mais voltar pra terra natal, Juans Carlos Abadias, Salvatores Cacciolas, Comendadores Arcanjos e assaltantes de trens pagadores que o digam, a gente acolhe qualquer dissidente corajoso, inclusive os que rompem com o regime da utilidade em sociedade.
Quem quer manter a ordem? A única ditadura que temos em nosso país é a ditadura da alegria no mês de fevereiro, dessa ninguém escapa, “quem não gosta de samba bom sujeito não é, ta ruim da cabeça!”, mas a nossa juventude é saudável, praticamente toda ela já sabe dar um creu! Creu! Creu! naquilo que não presta e assim nos tornamos “brasileiros pocotó”. Pessoas felizes, gente “livre” de qualquer mazela social. Ditadura aqui não ... gracinha!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Claraluz: a magia da rebeldia



Sou mero aprendiz mas tenho em mente onde quero chegar
Se não for como antes então chamo por ela pra poder me ajudar
Adulto ou criança aprendiz de feiticeiro
Sonho sem final, felicidade por inteira
Me solto no ar e me deixo pensar "sou uma estrela do mar!"
Eu posso tentar num salto agarrar o que eu sempre quis ...
Estou no paraíso, motivos tenho para poder ficar
Cavalos alados, histórias, lendas, mitos e crenças
Ela aprendeu a se esconder por entre as estrelas
Sei que a tempestade assustadora é sempre passageira
Queria saber fazer florescer num deserto de pedras
Vou envelhecer mas sempre serei uma criança a crescer
Então me lembro que ela foi assim
Claraluz a menina que transforma toda vida e toda forma
sempre num momento único e especial
Sua luz sempre traz o meu sorriso, sou adulto, sou menino
uno céu e terra num mesmo lugar
E ela diz "Quando alguém inventa alguma coisa o mundo anda"
Essa é a rebeldia que esperamos das crianças, mas sem perder a ternura jamais.


À Fernanda Lopes de Almeida e às idéias que não morrem nunca.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Ele não era da nossa tribo"


Sobre a intolerância

O preconceito gira em torno do sujeito desde o seu nascimento até o dia da sua hora
Agora entendo o porquê de tanto receio,
sempre que ocorre um tiroteio existe um preto na história.
Fico perplexo ao ver a idolatria por um bandido branco e belo que morreu cheio de glória.
Sua mãe já dizia “você não é um bom menino, se você fizer bagunça o preto veio te leva embora”.
E batam palmas olha o preto na favela.
A gente odeia quem tem pele amarela (fala a verdade).
E toquem fogo, ele não é da nossa tribo
e nosso instinto primitivo não ajuda a melhorar.
As “crianças” já se explicaram: “pensamos que ela era prostituta por isso a espancamos”.
E todo mundo vai pro céu pois aqui, como em toda parte, ama-se ao próximo como a si mesmo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O causo do "tabuado"



- Seu Delegado to preso!
- O que é isso? Quem é você? Que história é essa?
- Pode me prender que matei uma pessoa. Aquela velha dona daquela pensão.
- Peraí... conta essa história direito. Acho que você fez foi um "favor" pra polícia dessa cidade!
Naquela cidadela, há muito tempo atrás, conta-se que havia uma pensão que pertencia a uma velha que morava sozinha, era muito esquisita e alguma coisa muito intrigante acontecia por ali. Sempre tinha um certo movimento de gente de fora que passando pela cidadezinha, procurando um lugar para passar a noite entrava na casa antiga, mas estranhamente ninguém via os hóspedes deixarem o lugar, o fato é que os viajantes chegavam e não saíam, ou ninguém ainda havia presenciado a despedida deles.
O moço astuto, rapaz vindo de fora, ressabiado e cheio de boas intenções, passando pela pequenina cidade, visto que já era tarde resolveu passar a noite por ali mesmo. Bateu a porta da velha casa, e uma senhora, tão velha quanto a casa, com ar de acolhida e toda hospitaleira veio atende-lo. Disse o moço que precisava de um lugar para dormir e que partiria tão logo amanhecesse. A casa muito antiga, tinha muitos quartos e teto forrado de madeira, tudo muito simples, tranqüilo e comum exceto por um detalhe curioso, durante a noite o rapaz teve a sensação de ouvir barulho que parecia algo caindo, estampido seco, e se não fosse sua imaginação, juraria ter ouvido também gemidos abafados que eram interrompidos num supetão repentino.
Intrigado com aquilo, ao amanhecer o moço quis ficar mais um ou dois dias na pensão inventando desculpa qualquer para ali dormir mais uma noite. Era tardezinha quando chegou um jovem casal viajante procurando lugar pra passar a noite e como era comum, na casa se estabeleceram. Pessoas bem vestidas, carregando pertences, provavelmente traziam dinheiro, combinaram um quarto da tal casa, que a velha cuidadosamente escolhera para ambos.
A noite chegou, cada um procurava o rumo de seu aposento e o rapaz muito sagaz observava tudo com muita atenção nos mínimos detalhes, constatou o casal entrando no tal quarto e a velha averiguando tudo antes de também se recolher. Ao entrar em seu quarto, de súbito o intrigado moço forjara plano, pra no meio da noite sair sorrateiro de seu quarto e escondido na penumbra de um canto qualquer do casarão investigar o que ali ocorria, assim o fez e como se já esperasse, percebeu na escuridão o vulto da velha a vagar, carregava uma lamparina toda cuidadosa e se dirigia em direção a um cômodo da casa que ficava exatamente ao lado do quarto onde dormia o casal e se supunha vir os ruídos estranhos testemunhados na noite anterior. Pressentindo o rapaz que algo terrível pudesse acontecer ali, nem imaginava que mais um dia na casa deveria passar e que na noite seguinte, ocupando o quarto vago do casal, talvez não veria mais o amanhecer...

continua...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

It´s Rock!


Era pra esse texto chamar “Eu adoro Cartola”, porém achei esse título muito apelativo, poderia dar margem a interpretações equivocadas e já pensou se alguém resolve tirar a prova com perguntas sobre o trabalho do cara? Só sei que gosto da música, mas não sei porque gosto, pois não sou muito fã de samba e coisas do gênero! A única coisa que posso afirmar com total lucidez é que a música de Cartola tem algo que me cativa e traz uma sensação de felicidade e alento. Acho que isso começou quando ouvi um trechinho da música “O sol nascerá”, não lembro ao certo onde ouvi, mas sei que abriu um precedente pra que eu gostasse de outras que passei a conhecer.
O cara da loja de cds em São Bernardo deve ter achado estranho quando entrei com dois amigos, vasculhando as prateleiras de pop-rock – queria levar uns dez mas me contive e peguei só três – depois de uma minuciosa e indecisa procura. Estava com dois cds nas mãos, um de rock do tipo hardcore nacional e outro de reaggae e perguntei se havia alguma coletânea do Cartola que tivesse umas três ou quatro músicas (que eu até disse o nome e tudo!). Perguntou se era pra presente e respondi que era pra mim mesmo. Tive que ouvir as gozações de um dos colegas durante todo o trajeto de volta pra casa, no ônibus, nas ruas – ce vai ouvir isso? – enfim comprei e cumpri uma obrigação que há tempos almejava: comprar um cd do Cartola. É pertinente lembrar que o colega das gozações ainda é adolescente e o outro que defendia meu ponto de vista é metaleiro, com mais de trinta, mas que cultua as músicas que possuem qualidade, o garoto aprende, pois eu nessa fase também torcia o nariz pra muita coisa que hoje dou valor inestimável.
Não quero ser especialista em Cartola, samba de morro, MPB ou coisa que o valha, quero apenas ouvir o que me emociona e nesse contexto fui feliz ao comprar a coletânea. Já a primeira faixa é a maravilhosa “O mundo é um moinho”, posso não entender nada de letra de música, mas acho muito poética cada frase dessa canção, muito bem elaborada, poucos conseguiram ou conseguirão fazer algo parecido, não é a toa que Cazuza a regravou em um dos seus momentos de maior rebeldia, quando resolveu que podia cantar de tudo numa atitude muito rock and roll. Já “As rosas não falam”, me faz lembrar o povo bêbado lá em casa cantando no vídeokê, essa além clássica é lindíssima, mais poesia! “Ensaboa” pra mim é uma música muito sensual, não me pergunte porquê, sei lá, acho a letra e a melodia sexy – arte é assim, o artista coloca um objetivo e a gente interpreta conforme nossos valores he! He! Uma boa surpresa foi ouvir “Preciso me encontrar”, não sabia que era o “homem” que cantava, sei que já tinha ouvido em alguma trilha de filme mas não lembro qual. É boa e serve como discurso pra quem precisa de um tempo pra pensar, pra respirar e tentar colocar a cabeça em dia. E o disco segue com outras pérolas como “Minha”, “Disfarça e chora” entre outras.
Talvez não teria chegado até Cartola sem antes ouvir Cazuza, ainda que enjoados ortodoxos de plantão façam suas críticas, acho que artistas do momento atual que se dispõem a fazer um resgate “sério” de clássicos da música popular brasileira, só contribuem pra que a moçada saiba que existem grandes relíquias musicais em nosso país, artistas que de fato contribuíram para essa arte e que muitas vezes são mais conhecidos pelos gringos que por nós brasileiros. Existe muita bobagem e artistas revirando no túmulo com regravações cafonas e absurdas, todavia, de vez em quando, aparece alguém competente para resgatar com qualidade esses trabalhos e só pra citar alguns exemplos de bandas que gosto: Teddy Correa da banda Nenhum de Nós que interpreta Lupicínio Rodrigues, a Fernanda Takai do Pato Fu que fez um belo cd com canções de Nara Leão e a Cássia Eller que também fez muito nesse sentido. Estou ansioso pra conhecer mais de Noel Rosa, Orlando Silva e do já citado Lupicínio, e vou atrás, mas isso comento depois. Pretendo continuar gostando do meu pop-rock britânico, não abro mão, se Kurt Coubain que era um ícone do “grunge paulera” podia gostar da nossa música ... não vejo atitude mais hardcore que assumir que gosto de Cartola na atual conjuntura cultural/musical dessa terrinha. Yeahhh!!!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ano novo para as mesmas coisas


Não eu não quero fumaça pra me distrair.
Sei, as vezes a vida passa, eu não vou mentir ...
que chuva de flores nos quintais,
anjos vagando por aí
e nem pássaro azul eu nunca vi.
Vivo num mundo muito real,
violência pra mim, ah... é normal!
Já não consigo mais sorrir.

Ligo a tv, fecho os olhos,
leio jornais, ignoro,
na verdade estou mal, mas tento ser feliz,
(mas isso é pra quem?)
É pra quem sabe viver, pra quem se deixa levar
show de luzes que ilumina meu jantar,
mas ... que jantar?