O espetáculo mais interessante de se ver é o comportamento das pessoas diante daquilo que não conseguem explicar, o intransponível, como aqueles sonhos esquisitos que a gente tem de vez em quando, onde você está falando com uma pessoa e de repente já não é mais aquela pessoa ou quando você está num determinado lugar e no meio do sonho já está em outro e ao acordar não sabe contar o sonho que teve, pois não é plausível do ponto de vista daquilo que se tem como parâmetro na “vida de acordado”. Inusitado, ultimamente essa expressão tem sido recorrente nas minhas falas e me persegue. Sem recorrer a dicionário pra saber o que quer dizer, nem querer dar uma de intelectual esmiuçando a etimologia da palavra, ela é interessante do ponto de vista daquilo que não sabemos explicar, o diferente, o inesperado.Tenho me divertido bastante às custas das pessoas que estão ao meu redor, quando ocorrem situações “inusitadas”. Vou tentar exemplificar: adoro alguns textos de Gabriel García Márquez e do Kafka, o tal realismo fantástico que deixa qualquer um incrédulo, mas convencido ao mesmo tempo, justamente porque parece não fazer sentido e não adianta botar questionamentos, é aquilo e acabou. Eu me divirto por que sou um bom admirador de comportamentos e atitudes e nada mais engraçado que a reação das pessoas diante daquilo que não sabem direito do que se trata. A própria história do mundo é feita de ações das pessoas tentando explicar ou dar sentido para aquilo que ainda não sabem o que é, caso contrário o homem não teria saído de sua forma mais primitiva de pensamento.
Um exemplo bem legal disso que estou tentando falar é muito bem representado naquele filme “Guerra dos Mundos” nas primeiras cenas (a dos raios que caem do céu e o chão que treme e começa a rachar), um verdadeiro corre-corre e os personagens não sabem nem do que estão correndo, também não sabem explicar o que está acontecendo - críticas negativas á parte sobre o filme - é interessante ver o desespero humano em situações fora dos padrões da realidade. Tudo é sempre muito racional, tudo é muito previsível, as coisas sempre tem que ter um rótulo, bula ou legenda que explique e temos explicação para tudo, porém diante do inesperado as pessoas por mais inteligentes que sejam, agem como formigas depois que você pisa no formigueiro, não sabem pra onde ir, perdem o rumo e isso é engraçado. Não sou sarcástico, nem “sarrista” de ver pessoas em situações embaraçosas, só acho que isso é importante para tira-las do comodismo. O interessante não é ver algo chocar as pessoas, mas desestabilizar as crenças, levar as pessoas a tentar pensar naquilo que não dá pra pensar porque não encontra modelo na nossa limitada experiência.
Preciso também dizer que artista, pra mim, eram os pintores renascentistas. Essa coisa de arte pós-moderna, surreal, abstrata eu descarto totalmente e não mudo de idéia. Alguns “artistas” tentam causar espanto, reflexão, polêmica e discussão com “obras” idiotas e isso pra mim não passa de lixo. Visitei uma famosa galeria de arte no centro de São Paulo, havia um salão enorme e limpíssimo, com paredes altíssimas e lá no centro do ambiente: uma caixa com pregos. Era uma “obra de arte”! Coisas desse tipo servem apenas para subestimar a inteligência das pessoas – outra expressão que tenho utilizado bastante ultimamente - e quando falo do inesperado, do inusitado, não me refiro à coisas desse tipo. Retorno á idéia de comportamento e de estupidez humana que sempre sabe o que está por vir, porém quando se depara com algo “diferente” – vamos dizer assim – perde o rumo e faz cara de “o que se passa?”.
Diante do inusitado as pessoas não riem, porque o inusitado não é engraçado, ele deixa as pessoas inseguras, sem saber o que pensar, sem opinião, sem julgamento, medo. E de pensar que toda essa minha alegria começou ao ver a perplexidade das pessoas diante de uma situação corriqueira, porém não óbvia, mas fora dos padrões e inesperada que aconteceu a pouco. Isso é bom, pois desequilibra os conceitos e modelos pré-estabelecidos e leva as pessoas a indagar, ainda que não saibam direito o porquê de estarem perguntando ou se terá uma resposta plausível e satisfatória. Indagar ajuda a “crescer a inteligência”. O inusitado não é aquilo que choca gratuitamente, mas aquilo que confunde. Quanto à tal situação que ocorreu... isso não tem importância, em algum momento de nossas vidas vamos nos deparar com alguma. Preste atenção: “ninguém vai entender nada”.