Lembrei de uma pessoa, mas não lembro o nome e nem a ocasião, que certa vez comentou comigo que um indivíduo muito doente havia sido curado graças à música da Enya. Foi meio por acaso, pois há alguns instantes atrás tomei uma dose de som para acalmar o cérebro diante de um trabalho cansativo que estava preparando e senti que precisava dar uma pausa pra tomar um café e ouvir uma música, mas tinha que ser aquela música específica e naquele exato momento, uma vontade!
É certo que a música tem mesmo o poder de acalmar ou enfurecer uma pessoa dependendo do contexto em que é ouvida, a exemplo disso temos situações reais em que a música une pessoas, reúne grupos em “tribos”, separa pessoas, divide e segmenta grupos por meio de afinidades e gostos. Ela nos transporta para o passado, cria sensações boas e ruins, desperta ou faz adormecer os sentidos. O que não é comprovado, ainda, é se ela cura no sentido físico da coisa, mas com um pouco mais de sensibilidade pode-se desfrutar o efeito placebo que ela causa em nossos espíritos. Um colega de trabalho até dizia ser “amante da boa música”, e o “boa” fica por conta de cada um. Sem querer, percebi que estava fazendo uso da “musicoterapia” sem indicação nem acompanhamento médico há algum tempo. Acho muito bom e não causa efeitos adversos se utilizada moderadamente (volume).
Curiosamente tenho ouvido algumas músicas pop com conteúdos que fazem alusão a essa busca pela “salvação” no sentido amplo das necessidades vitais humanas: I don’t know what I can save you from da banda Kings of Convenience, A Cura do Oficina G3 e várias da banda Nenhum de Nós que direta ou indiretamente tocam nessa temática, mas é pura coincidência, ou não.
A música pode alterar o estado emocional das pessoas e influenciar no comportamento levando a certos tipos de atitudes, sim, conheço pessoas (da vizinhança) que quase chegaram a sair no tapa por causa de divergências musicais, um ouve e quer que o outro ouça também, bem alto! Neste caso, o sujeito que estava “se medicando” a qualquer hora do dia deixou o outro doente. O importante mesmo é o bom uso que se faz da música para que ela faça bem pra gente. Agora que estou morando em uma cidade do interior, observo algumas peculiaridades em relação ao hábito de ouvir música, existe uma certa predominância de estilo musical o qual gira em torno de meia dúzia - se for tudo isso - de cantores ou duplas do gênero, o que torna a atividade de ouvir música algo meio enjoativo, pois são apenas duas emissoras de rádio e o mesmo conteúdo, por isso carrego o meu “arsenal” musical. Eu respeito a cultura local. Ainda mais preocupante que a qualidade é a falta de opções (diversidade), acho que as pessoas deveriam quebrar um pouco a regra e se permitir a conhecer coisas novas em se tratando de música, ainda mais com tantas ferramentas a disposição como a internet por exemplo.
Muito se discute sobre o que é e o que não é música, a quantidade de sons que se enquadra nessa categoria ou nesse tipo de manifestação sonora é surpreendente. Lembrei de um professor na faculdade que afirmava que a música clássica, por exemplo, consegue expor a realidade de um momento histórico e até mesmo traduzir, ainda que sem utilizar palavras, situações diversas e dá-lhe desenho do Tom e Jerry! Pena que grande parcela da população, assim com eu, não fora alfabetizada para este tipo de leitura, mas aqui prefiro colocar em reflexão a leitura que está ao alcance intelectual popular, a “música pop”, ainda que por música pop temos desde David Bowie ou Milton Nascimento até barulhos do tipo “Fode, fode a Mulher Maravilha!”, tão bem aceita pelo nosso povo durante dois meses de carnaval.
Quando um barulho é música ou simplesmente um barulho? Interessante seria ouvir essa resposta do Naná Vasconcelos ou do Hermeto Pascoal e tentar entender o que compreende o Luan Santana a respeito disso, música ou não música? Não quis entrar na discussão da manipulação de massas, mercado de consumo e outras categorias, tudo é música, tudo tem seu espaço e os seus argumentos. E então percebi que a auto-medicação nesse caso pode recuperar enfermidades, pena que o uso desse remédio por algumas pessoas é feito de maneira descontrolada.