terça-feira, 29 de novembro de 2011

Aos putos que não pariram ...


E que não puxaram o tapete, não passaram por cima, tiveram compaixão, que tentaram mesmo sabendo que não valeria a pena, que fizeram tudo o que poderia ser feito, que se importaram com os sentimentos, que defenderam o bom senso, se esforçaram e sorriram para parecerem simpáticos e não apenas por falsidade, àqueles que deram uma força.

Aos que viram e não comentaram porque não convinha aos outros algo ser dito, aos que viram e falaram porque o silêncio seria uma forma de omissão. Aos que consideraram o outro, respeitaram as leis de trânsito, esperaram a sua vez, cumpriram o horário combinado, terminaram o que se comprometeram a fazer, pensaram duas vezes antes de falar para não causar mal-estar, que optaram por não faltar.

Aos que não quiseram levar vantagem, não persuadiram usando chantagem, cumpriram a sua tarefa, aprenderam a lição, tentaram mudar para melhor, tiveram força de espírito, assumiram o seu erro, marcaram presença, foram transparentes sem machucar, prepararam antes de passar a bola adiante, tiveram humildade e deram conta de lidar com a verdade.

Aos que se deram conta e voltaram atrás, reconsideraram, não levantaram falso testemunho para se resguardar da culpa, trocaram a rigidez pelo jogo de cintura, reafirmaram apenas aquilo que constataram, fizeram das tripas coração, atentaram para o problema que ninguém conseguia enxergar, valorizaram as virtudes, desprezaram o que era banal em prol do que era realmente importante naquele exato momento, não foram intransigentes, que tiraram leite de pedra.

Aos que se preocuparam com sua própria vida, não cutucaram as feridas, melhoraram o que poderia ter ficado ainda mais feio, fugiram das intrigas, consideraram a fé, procuraram ver o lado bom, não atrapalharam, conseguiram perdoar, praticaram o elogio, agradeceram, pediram perdão, fizeram favor, foram gentis e aos que ajudaram.

À todos aqueles que deram o exemplo mas que não conseguiram fazer escola, serviram de modelo mas não foram seguidos, foram admiráveis e passaram despercebidos: um ótimo fim de ano e próspero ano novo! Que no ano vindouro a nossa sociedade reveja seus ídolos e valores a serem enaltecidos.


Imagem:http://www.bonitasfotos.com/imagens-flores.html

sábado, 26 de novembro de 2011

Felicidade (d.o.p.s.)


Li num livro de Oscar Nakasato uma frase que me chamou a atenção e que ao mesmo tempo abriu precedente para uma enxurrada de divagações acerca do conceito de felicidade, dizia assim “Há em alguns, uma espécie de felicidade que nasce do desconforto alheio”. A primeira delas foi a constatação de que, por falta de consenso, a felicidade não existe, é uma utopia sagrada. Já no que se refere à frase do livro, pensei naquelas pessoas ao nosso redor que se incomodam muito com a tranquilidade e estabilidade emocional alheia e por isso tentam alcovitar e cutucar feridas nos outros para se sentirem bem consigo mesmas.

É provocativo, mas acredito que a felicidade de algumas pessoas não está relacionada à presenciar a felicidade do seu próximo. Isso porque cada um tem o seu conceito de felicidade e acha que o modo de ser feliz do outro não é felicidade, realmente existem aqueles que chegam ao orgasmo quando testemunham os sonhos dos outros serem frustrados. A felicidade é algo que incomoda as pessoas. Todos querem ser felizes ou serem considerados felizes, mas acham insuportável a felicidade do outro. Será inveja ou incapacidade de se sentir feliz? O Departamento de Ordem Política  Pública e Social em vigor nos dias atuais adverte: “Felicidade é uma contravenção!”.

No atual estatuto da felicidade existem modelos pré-estabelecidos a serem seguidos para que a pessoa seja considerada uma pessoa feliz, daí tanta intolerância em nossa sociedade, afinal quem sai dos padrões tradicionais acaba pagando um preço pela impertinência. Um bom exemplo são as novelas que influenciam muito o comportamento e o pensamento dos brasileiros, pois toda novela tem que ter um final feliz, mas só vai ser considerada “boa” se antes da felicidade dos mocinhos, no último capítulo, eles sofrerem bastante para poder alcança-la, ou seja, tem que sofrer primeiro. As principais igrejas e suas doutrinas também incutem em nossas mentes de maneira bem explícita que a “felicidade alcançada” vem de Deus e a “felicidade constante” é coisa do diabo.

É uma contravenção, uma indisciplina social, um pecado, mas se tornou dever de todos ser feliz. A sociedade em suas várias contradições de valores condena a felicidade, mas estará cometendo uma heresia aquele que disser que não é feliz, pois para muitos o sujeito que não assume a felicidade é considerado inexoravelmente infeliz, o que não é verdade. Já ouvi respostas muito inteligentes de algumas pessoas quando perguntaram a elas a respeito de suas felicidades: “sou feliz de vez em quando” ou “várias vezes ao dia” e ainda “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”, acho sagaz e verdadeiro esse tipo de resposta.

Pois é, de fato perde-se muito tempo monitorando a felicidade dos outros, quando o que é realmente importante para sermos felizes é cuidar da vida da gente. Afinal, a felicidade nasce dentro da gente ou depende do que vem de fora? Se depender do intemperismo ao qual estamos submetidos, então teremos que esperar muito tempo até que todos sejam felizes em nosso entorno para que nos tratem com o respeito que precisamos para ser felizes, entretanto para quem realmente acredita que a felicidade não deve ser uma imposição e que ninguém é obrigado a ser feliz o tempo inteiro e que para obter este estado de espírito não importa o que venha de fora, o bom mesmo é a felicidade momentânea (e sem pressa pra acabar).

A última divagação que faço sobre a frase que me trouxe inspiração para pensar na tal felicidade é que eu não quero ser feliz e não desejo felicidades pra ninguém, cada um que seja feliz quando sentir a felicidade dentro de si mesmo. Eu serei feliz sempre que a felicidade despertar dentro de mim e pouco me importam as imposições do D.O.P.S., pois a felicidade é assim de tijolinho em tijolinho.


Dica: Ninhonjin. Autor: Nakasato, Oscar. Editora: Benvirá.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Wiki-pédia-pédia-pédia!

- Professor! Pra que precisamos aprender geografia?
- Pra crescer e ficar sabido, pequenino.
- Mas... não faz sentido eu ficar decorando os nomes dos lugares e suas capitais.

- Se você não souber isto, como vai fazer se algum dia viajar pra outro estado ou país? Já pensou você num lugar sem saber o nome dele ou onde fica?
- Professor, não me venha com essa conversa. Não faz sentido ficar decorando coisas que sempre estão mudando. Olha este mapa-múndi, nem consigo achar onde fica a Iugoslávia!
- E nem vai achar mesmo, ela não existe mais. Assim como a Alemanha Oriental e a Birmânia, que agora se chama Myanmar, ou a Tchecoslováquia e a ...
- Aaahhh não! Assim não dá. É mais um motivo pra não ter que estudar e ficar decorando estas coisas.
- Pois é.
- Mas professor, se existe a internet e o Atlas Escolar pra gente pesquisar, pra que eu vou ter que guardar tudo isto na cabeça? É muito país pra saber o nome e onde ele fica. Quantos países existem no mundo?
- Depende pequenino, considerando aqueles não reconhecidos pela ONU e os micropaíses e regiões em litígio fronteiriço ou ainda aqueles em processo separatista, por exemplo, podemos afirmar com pouca precisão que...
- Caracas! Vai me dizer que não tem resposta pra isso, e se a gente perguntar no Twitter, ou pesquisar no Google, será que alguém saberia responder? Acho que lá vai ter uma resposta, pois o livro de geografia é do ano passado e muita coisa pode ter mudado né?!
- Isso mesmo, mas agora vamos falar do Amazonas já que estamos estudando o Brasil, nosso lindo e imenso país tropical abençoado por Deus e rico por natureza.
- Amazonas! O que a gente vai estudar sobre o Amazonas? Lá só tem floresta e bichos, “nem sei se tem civilização lá”.
- Por isso mesmo é que vamos estudar o estado do Amazonas.
- Por que a gente não estuda sobre o “Mato Grosso do Sul”? Sabia que eu já fui pra “Cuiabá”? Minha avó mora lá, eu amo o Mato Grosso do Sul.
- Pequenino, você tem razão! Estudar pra que? Ainda mais quando se conhece bem o lugar onde a gente mora ou passeia. Mas... o papo está muito bom porém, como lição de casa vocês terão que decorar o nome de todos os municípios do estado do Amazonas e acho bom decorar também o número de habitantes de cada um, e ... vamos ao processo civilizatório do Amazonas...
- Com todo respeito professor, você ta louco?! Já pensou se a gente tiver que estudar os 27 estados brasileiros e decorar os nomes de todos os municípios de cada um deles?
- Pois é, por enquanto vai ser mais fácil, pois no Congresso tramitam projetos para a criação de mais 11 estados em nosso território, aí sim vocês terão mais trabalho para decorar.
- Não falei! Se vão mudar tudo de novo, pra que se preocupar em decorar isto agora? E o que a gente vai fazer com esse livro de Geografia quando tudo mudar?

- Faça uma doação, ou então, junta tudo, guarda e vai ouvir happy-rock. Música boa também traz cultura.
Reiniciando...


Fonte da foto: se esqueci, acho que é internet ou Gugol!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Gerson era “o cara”


Gerson I - A origem

Gerson sempre teve amor próprio e era tanto amor que acabou se tornando o centro do Universo para si mesmo. O desprezo pelo outro fazia-o enfatizar cada vez mais o próximo em suas ações cotidianas. O dia começava depois de uma bela e caprichada cagada em algum banheiro público. Limpava-se, abria a porta do reservado e saía. Dar a descarga pra que? O próximo a usar a privada poderia fazer isso e se caso não fizesse, alguém que ganha pra limpar banheiros o faria.

Gerson II – A missão

Gerson bebia cerveja enquanto dirigia seu carro. Saciada a sua sede e amenizado o calor do corpo - provocado por aquele trânsito infernal -, simplesmente se livrava da latinha jogando-a pela janela do veículo ali mesmo na rua . Afinal, não há coleta seletiva em todas as ruas e avenidas da cidade e jogar latas de alumínio no lixo comum dificulta o trabalho dos catadores de latinha e seu meio de sobrevivência, então, fica mais fácil apanha-las no asfalto.

Gerson III – E a câmara secreta

Gerson ia às compras no hipermercado, pegava um item na seção de produtos de limpeza, desistia do produto e dispensava-o numa prateleira qualquer da seção de laticínios ou cereais, os repositores estavam lá para organizar as gôndolas e deixar tudo bonitinho, enfileirado e separado do jeito que a gente sempre encontra quando vai ao mercado. Ao sair para o estacionamento levando o carrinho abarrotado de compras, Gerson enchia o seu bagageiro, fechava-o e saía dirigindo satisfeito deixando o carrinho ocupando a vaga ao lado ou na traseira de outro carro qualquer. Quando o outro motorista chegar, não custa nada ele guardar o carrinho no espaço reservado para isto.

Gerson IV – Esqueceram de mim

Gerson costumava mudar constantemente de endereço. A cada mudança, sempre havia um sofá velho, colchão rasgado ou guarda-roupas quebrado que não tendo serventia na nova casa, era deixado na antiga residência para o próximo morador dar um destino ao elefante branco, às vezes depositava cuidadosamente a bugiganga na calçada em frente a um terreno baldio ou mesmo em frente ao muro da vizinhança. "Pra onde vou... é longe e não passarei mais por aqui", pensava ele.

Gerson V – A rede social

Gerson tinha uma certa propensão a lembrar e esquecer fatos e compromissos repentinamente e em momentos pouco oportunos. Ao dirigir pelo centro da cidade parava seu carro no meio da pista para pedir informações sobre endereços interrompendo o fluxo logo atrás, considerava sua "urgência" uma "urgência de maior urgência". Quando se encontrava na condição de pedestre, atravessava a rua - onde lhe conviesse -, ignorava a calçada e as faixas de sinalização, ia pelo meio da rua mesmo, sabia que o pedestre sempre tem razão e que os motoristas não são bestas.

Gerson VI – O retorno do rei

Gerson era simples assim. Transferia o problema para os outros, levava vantagem, mas não passava ninguém pra trás, apenas “chegava na frente”. Tinha sempre razão em todo lugar, queria ser bem atendido, era o escolhido, simplesmente o máximo! Algum dia ainda receberia a estatueta do Oscar, pois era o melhor em todas as categorias, campeão de bilheteria.

Gerson - Parte final: E as relíquias da morte II

Gerson permanecia na sua trajetória de glória até que um dia encontrou Frederico. Fred ou Kiko, como era conhecido, trafegava acima do limite de velocidade permitido para transitar naquela rua residencial, quando ouviu um baque e sentiu o automóvel dar um solavanco. Olhando pelo retrovisor viu um corpo lá estendido no chão, o corpo ia ficando pra trás e cada vez menor na paisagem. Era Gerson o atropelado. Kiko não parou para socorrer pois estava atrasado a caminho de um importante compromisso e pensou com tranqüilidade que alguém iria fazer alguma coisa para resolver “o problema”. Ninguém se responsabilizou, Gerson agonizou lentamente esperando providência alheia e padeceu.



Inspiração: reportagem publicada no site do Jornal de Lavras " Desrespeito incomoda um cidadão de Lavras" ; publicada em 20/07/2011 08:01. Foto:Jornal de Lavras. Sobre a "Lei de Gerson": http//:super.abril.com.br/superarquivo/2004/conteudo_124358.shtml.

sábado, 9 de julho de 2011

Sim, esqueleto!



Ele até que tentou de tudo, tornou-se palhaço, porém não havia como fazer o povo rir. Também, na atual conjuntura do país, não ta nada fácil fazer ninguém rir mesmo. Procurou o Sindicato dos Palhaços e reclamou das más condições de trabalho e da falta de perspectiva profissional. Em sua insana insistência pelo otimismo foi mais além, decidiu fazer algo muito mais grandioso para trazer a felicidade àquela cidade: mudar a paisagem! Pendurou lanternas coloridas pelas ruas da cidade, grafitou muros dantes encardidos, pintou frases com mensagens positivas em postes, semeou flores nos canteiros das praças, inclusive aquelas que não se localizavam em frente cemitérios, e até coloriu as faixas de pedestres da avenida principal, uma de cada cor. Não houve efeito. Ninguém tem tempo e nem humor para prestar atenção em bobagens no meio da rua, é tanta balburdia e tanto compromisso importante. O único resultado prático, que talvez possa ter atingido, foi um atropelamento na tal avenida onde as faixas de pedestres, misturadas à toda poluição visual, confundiram um cidadão mais desatento que tentou atravessa-las a cinco metros de onde realmente elas ficavam.

Ele se dirigiu até uma escola, levava doces e sorriso largo, até vestiu fantasia de pantera cor-de-rosa para a ocasião. Após muita insistência conseguiu adentrar no recinto e na esperança de adoçar os sonhos e provocar reações positivas nas carinhas carrancudas, constatou que as pequenas criaturinhas já estavam muito bem instruídas a não aceitarem nada de estranhos, nem mesmo se tiverem vestidos com fantasia de personagem de desenho animado.

Prosseguiu o sujeito tentando tirar as pessoas do estado de apatia crônica, sentou em uma praça segurado um cartaz enorme com os dizeres “Abraço grátis em troca de um sorriso”, e achando que se tratava de um louco em greve de fome, o povo passava longe, as pessoas atravessavam a rua para não correrem riscos. Só após três meses transcorridos de inusitada instalação artístico-protestante na praça, percebeu o jornal da cidade algo diferente na paisagem daquele local público e resolveu averiguar e noticiar tal fato. Saiu assim em notinha na segunda página: “Atrapalhava a circulação de pessoas em local público e foi detido por indecência e atentado ao pudor.”

Insistiu. Algum tempo depois, lá estava ele novamente tentando causar euforia e dessa vez segurava balões multicoloridos de gás hélio que se agitavam ao sabor do movimento do ar e eram tantos que quase o arrancavam do chão em direção às nuvens. Rodopiava nas pontas dos pés, dançava e oferecia balões aos transeuntes, estes olhavam de soslaio para o sujeito e esquivavam o corpo.

Suco de limão sem açúcar, notícia de morte, início de expediente, conta vencida pra pagar, segunda-feira mal dormida, esse povo não ri! O jeito foi apelar. Parecia um momento surreal quando os humanos apáticos presenciaram uma chuva de dinheiro a tingir a paisagem do centro da cidade de azul. Não se sabe ao certo a origem das cédulas, mas elas estavam lá, caíam aos montes, em diferentes valores e velocidades, pousavam no chão, sobre os carros, as copas das árvores e no teto da banca de revista, mas ninguém se atreveu a tocar em nenhuma delas, ninguém esboçou sorriso ou pelo menos uma reação positiva, olhavam para o alto de um prédio onde podiam avistar o sujeito despejando os cobiçados pedaços de papel. Cada um seguia o seu caminho e a sua rotina sem se alterar diante de tal contratempo e nem mesmo aceitaram as flores oferecidas por um enorme sorriso. Ninguém se comove diante daquilo que vem de um esqueleto.

terça-feira, 29 de março de 2011

O som que salva

Lembrei de uma pessoa, mas não lembro o nome e nem a ocasião, que certa vez comentou comigo que um indivíduo muito doente havia sido curado graças à música da Enya. Foi meio por acaso, pois há alguns instantes atrás tomei uma dose de som para acalmar o cérebro diante de um trabalho cansativo que estava preparando e senti que precisava dar uma pausa pra tomar um café e ouvir uma música, mas tinha que ser aquela música específica e naquele exato momento, uma vontade!

É certo que a música tem mesmo o poder de acalmar ou enfurecer uma pessoa dependendo do contexto em que é ouvida, a exemplo disso temos situações reais em que a música une pessoas, reúne grupos em “tribos”, separa pessoas, divide e segmenta grupos por meio de afinidades e gostos. Ela nos transporta para o passado, cria sensações boas e ruins, desperta ou faz adormecer os sentidos. O que não é comprovado, ainda, é se ela cura no sentido físico da coisa, mas com um pouco mais de sensibilidade pode-se desfrutar o efeito placebo que ela causa em nossos espíritos. Um colega de trabalho até dizia ser “amante da boa música”, e o “boa” fica por conta de cada um. Sem querer, percebi que estava fazendo uso da “musicoterapia” sem indicação nem acompanhamento médico há algum tempo. Acho muito bom e não causa efeitos adversos se utilizada moderadamente (volume).
Curiosamente tenho ouvido algumas músicas pop com conteúdos que fazem alusão a essa busca pela “salvação” no sentido amplo das necessidades vitais humanas: I don’t know what I can save you from da banda Kings of Convenience, A Cura do Oficina G3 e várias da banda Nenhum de Nós que direta ou indiretamente tocam nessa temática, mas é pura coincidência, ou não.

A música pode alterar o estado emocional das pessoas e influenciar no comportamento levando a certos tipos de atitudes, sim, conheço pessoas (da vizinhança) que quase chegaram a sair no tapa por causa de divergências musicais, um ouve e quer que o outro ouça também, bem alto! Neste caso, o sujeito que estava “se medicando” a qualquer hora do dia deixou o outro doente. O importante mesmo é o bom uso que se faz da música para que ela faça bem pra gente. Agora que estou morando em uma cidade do interior, observo algumas peculiaridades em relação ao hábito de ouvir música, existe uma certa predominância de estilo musical o qual gira em torno de meia dúzia - se for tudo isso - de cantores ou duplas do gênero, o que torna a atividade de ouvir música algo meio enjoativo, pois são apenas duas emissoras de rádio e o mesmo conteúdo, por isso carrego o meu “arsenal” musical. Eu respeito a cultura local. Ainda mais preocupante que a qualidade é a falta de opções (diversidade), acho que as pessoas deveriam quebrar um pouco a regra e se permitir a conhecer coisas novas em se tratando de música, ainda mais com tantas ferramentas a disposição como a internet por exemplo.

Muito se discute sobre o que é e o que não é música, a quantidade de sons que se enquadra nessa categoria ou nesse tipo de manifestação sonora é surpreendente. Lembrei de um professor na faculdade que afirmava que a música clássica, por exemplo, consegue expor a realidade de um momento histórico e até mesmo traduzir, ainda que sem utilizar palavras, situações diversas e dá-lhe desenho do Tom e Jerry! Pena que grande parcela da população, assim com eu, não fora alfabetizada para este tipo de leitura, mas aqui prefiro colocar em reflexão a leitura que está ao alcance intelectual popular, a “música pop”, ainda que por música pop temos desde David Bowie ou Milton Nascimento até barulhos do tipo “Fode, fode a Mulher Maravilha!”, tão bem aceita pelo nosso povo durante dois meses de carnaval.

Quando um barulho é música ou simplesmente um barulho? Interessante seria ouvir essa resposta do Naná Vasconcelos ou do Hermeto Pascoal e tentar entender o que compreende o Luan Santana a respeito disso, música ou não música? Não quis entrar na discussão da manipulação de massas, mercado de consumo e outras categorias, tudo é música, tudo tem seu espaço e os seus argumentos. E então percebi que a auto-medicação nesse caso pode recuperar enfermidades, pena que o uso desse remédio por algumas pessoas é feito de maneira descontrolada.