sexta-feira, 25 de abril de 2008

Quero ser Thom Yorke

A mesmice está em toda parte e todo mundo quer ser diferente, ninguém gosta de ser igual, mas também ninguém quer chamar muito a atenção, ou... quase ninguém. Não quero ser igual a eles, não quero ser igual a ninguém, mas se eu for muito diferente não vou ser aceito e desejarei ser simplesmente normal como as outras pessoas me parecem ser quando ando pelas ruas no meio da multidão.
Quem decide o que é normal? Há quem se esforce para ser diferente e existem aqueles que simplesmente são diferentes. Se eu for “do contra” serei diferente ou só mais um chato? Cada um tem a sua cota de pecado, um coração de pedra, amigos e amarguras. E o tempo ... esse é inimigo e não esquece as coisas do passado. Mas se você pudesse enxergar que até os monstros têm algo de bom pra dar, nunca mais daria atenção praquilo que se vê ou que se ouve falar, então ... guarde o que é seu.
É por isso que não se deve julgar alguém sem saber o que lhe vai na alma. O lado mais obscuro de qualquer ser, hipoteticamente doce, só se explicita em momentos de crise. Quem nunca desceu do céu? Quem nunca se surpreendeu ao perceber que é capaz daquilo que não julgava ser?
Eles agora pintam os olhos, furam o nariz, colocam correntes, mudam a cor do cabelo, desenham pelo corpo todo, rasgam o joelho da calça, zombam do que é mundano, tentam chocar. Todos riem, fumam, bebem, cospem e sacodem o corpo ao som de sucessos efêmeros e eu... eu acho isso tudo tão normal. A perfeição está em toda parte, eles querem ser Jesus, eles querem ser o Elvis, todos querem ser Alain Delon mas eu... but I’m a creep, I’m a weirdo , ainda bem! Sempre... sempre.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

À base de aspirina

Só mesmo à base de aspirina! Acordar cinco e meia da manhã de estomago virado, pescoço enrijecido e as pernas bambas, engolir café amargo, enfrentar chuveiro que não esquenta, sair correndo no sereno da manhã, subir morro e pegar ônibus lotado, motorista ta atrasado, sua cara enraivecida, não espera nem você subir e arranca como se tivesse indo tirar a mãe da guilhotina, cada curva é uma tortura, se segura ou voa pela janela, levanta logo e dá o sinal o ponto que eu ia descer já ficou pra trás. Só à aspirina! O “bom dia” entre dentes cerrados de quem quer puxar o seu tapete, as vozes que apertam mais que torniquetes seus tímpanos que já pedem um domingo, antes mesmo de iniciar a jornada da segunda, a missão de agarrar o touro pelos chifres, manter a postura diante do caos, mostrar serviço, me corrija se eu tiver errado, parece que ali aquele alguém calado, na verdade quer ver você se ferrar. O pior de tudo é o meio do dia, ce já ta quase morto e ainda não cumpriu nem metade, axilas molhadas e esqueça a vaidade, a barriga roncando e não sobra tempo nem pro xixi, ainda tem a segunda etapa, calor do Saara, e sapato apertado, não sou gigolô, mas um dia saio dessa vida! Só com muita aspirina! Cabeça fervendo, demandas chegando, o chefe balindo e o mundo acabando, se depender de mim to fora, se depender das minhas contas to dentro, o gosto de sapo é horrível, mas com um pouquinho de muita paciência dá, afinal se agüentastes até agora por que não agüentarias até o final do expediente ou mais quarenta anos até quando puder se aposentar? Só a base de aspirina! Morar em apartamento, dia e noite agüentar o tormento de quem não sabe o valor que o silêncio tem, alarme de carro disparado, caminhão de morango passando, a furadeira do vizinho que não quer cessar, criança chorando, pais resmungando e alguém que resolveu ouvir pagode e animar o condomínio todo. Ver as notícias do dia, saber que os juros vão aumentar pra conter a inflação provocada por aquele sonho a prestação que você estava certo de que iria comprar, ainda tem a dengue dando o maior perrengue, já pegou uns três que conheço se eu levar uma picada, nada de aspirina, nem Novalgina “em caso de suspeita de dengue, não utilize analgésicos”. Só mesmo com muita aspirina! A campainha tocando, a vizinha já entrando, folheto na mão, você com a cara desmanchando, “meu filho procure a Palavra, isso vai te ajudar”, o telefone que chama, eu só querendo ir pra cama, mas já são quase nove e ninguém merece discutir relação essa hora da noite com chamada via celular, depois da tormenta, lembrei de uma coisa! Preciso comer, só que tenho que correr, ainda não terminei de ler aquele livro que comecei, o concurso é semana que vem e ainda faltam uns seis pra analisar. O dia ainda nem terminou, aquele amigo ligou, lembro que tinha um recado pra dar, mas agora não vou lembrar, “depois te ligo tchau!”. Putz! Era só pra avisar que amanhã não vai dar, era pra eu ter feito hoje, acho que vou me lascar, mas antes de conseguir me deitar, dormir eu sei que a insônia não vai deixar, então eu lembro de tomar outra dose dessa maravilha, só que agora vou usar na forma de gotinhas 1, 2, 3..., “para uso adulto, quarenta gotas”, pois comprimido a essa hora até dá um jeito na enxaqueca, mas o estômago amanhã de manhã vai reclamar.

Cría cuervo ...


É assim que começa, ele pede e você dá, ela chora e você cede, você fala uma coisa e ouve três e ainda diz “que gracinha ela tem o gênio forte igual o da mamãe!”.

Tenho observado no cotidiano como aquele velho ditado "ser pai ou mãe é padecer no paraíso..." até convém, só que o paraíso fica por conta do rebento que não tem limites, faz o que quer, quando, na hora e no lugar que quer, pois viver assim sem ser contrariado é realmente um presente pra qualquer sujeito candidato a umbigo do mundo.


Solidariedade, altruísmo, compaixão, amor e respeito ao outro, reflexão e aceitar as diferenças são coisas que se aprende e se ensina também! É difícil introduzir certos valores nas crianças e adolescentes (principalmente na era da supercomunicação de massa) mas as “experiências vividas” ainda continuam, ao meu ver, a melhor maneira de se aprender quando o assunto é convivência. Se a criança não aprende a ser contrariada, a ouvir a palavra “não” de vez em quando e nunca se viu em uma situação onde tenha que repartir e ceder, como esperar desse indivíduo atitudes tão importantes como essas.
Os principais responsáveis por fazer os pequeninos vivenciarem essas experiências de vida são, sem dúvida nenhuma, os pais. O ambiente desse tipo de aprendizagem é o lar. Assim como a escola deve oferecer um ambiente propício para a construção de conhecimentos significativos acerca da riqueza histórico-cultural construída pela sociedade na qual a criança vive, para que esta dê continuidade àquilo que insistimos chamar de civilização, os pais, nossos primeiros professores, devem dar “oportunidade” aos filhos de aprenderem valores básicos como aqueles que tanto reclamamos por não presenciar mais com tanta freqüência hoje em dia.

A sociedade assiste horrorizada à episódios como o da loira que matou os pais a paulada naquele bairro chique de São Paulo, entre tantos outros casos que a opinião pública condena e o jornalismo sensacionalista em sua demagogia “cata-Ibope” reforça com protestos contra esse tipo de crime hediondo, mas... alguém já se perguntou se essas pessoas - como a loira assassina por exemplo - durante a vida ouviu algum “não” dos pais? Pois bem, no dia em que disseram “não, você não pode namorar fulano.”, ela deu o que como resposta aos pais? Não que esse tenha sido o único motivo do crime, certamente a fortuna pesou bastante (mais uma vez um valor que se sobrepôs a outros valores) e de modo algum quero justificar a atitude cruel daquela criatura, mas fica aí um exemplo concreto das possibilidades de se criar monstros quando o tempo, o trabalho, a vida corrida e a falta de um olhar mais atento dos pais sobre os filhos se tornam pretextos para nunca se dizer “não”.
É fato que existe o temor por parte dos pais em magoar os filhos com um “não” e que estes “cresçam revoltados”, e aqui cabe também aquela fala  muito comum  “...quando eu era pequeno eu não pude ter nada disso e agora vou fazer de tudo para que meus filhos tenham”, seja uma preocupação justificada, entretanto, o problema é quando esse esforço não vem acompanhado de ponderações e sensatez, pois os pais devem mesmo fazer de tudo que tiver ao seu alcance para dar o melhor aos filhos e isso inclui também dar “limites”, essa pode ser a maior prova de amor. Passar a mão na cabeça, fazer vistas grossas ou desprezar más atitudes dos filhos só colabora para que eles futuramente não tenham senso do que é justo, correto, razoável. Um mimo é sempre bom e quem não gosta? Contudo, mimar não é apenas presentear para compensar a ausência no dia-a-dia, muito menos dizer sim para tudo, só porque o pai passa pouco tempo com a criança e não quer contrariá-la. Se em casa a criança é o umbigo do mundo, mundo afora não será, e como ela irá reagir a um mundo que contraria, impõe regras e diz “não”?

O primeiro passo para a construção de um grande ser humano é faze-lo ver no próximo um outro ser humano, que sente as mesmas coisas que ele próprio sente. Adoro o título e a mensagem de uma música da banda gaúcha Nenhum de Nós: “Permitam que seus filhos aprendam a ter compaixão, ensinem os seus filhos, ensinem a ter compaixão.” É a lei da ação e reação (em cadeia). 

O causo do "tabuado" (Parte final)

Acontece que ao amanhecer, o rapaz encontrava-se novamente a sós com a velha naquela casa e ao perguntar sobre o jovem casal da noite anterior, a velha respondera que já haviam ido embora bem cedo, fato que poderia ser comum não fosse a proposta que veio logo em seguida, a decrépita senhora com sua alma caridosa sugeriu ao moço que ocupasse aquele quarto que o casal passara a noite, pois segundo ela, era o melhor e mais confortável da casa. Dizem que naquele tempo e nessas cidadezinhas do interior era comum pessoas andarem armadas (como se hoje fosse muito diferente!), o rapaz trazia em sua bagagem, além de mudas de roupa, uma companheira, daquelas que quando escreve por linhas retas, traz o inevitável, aquilo que não tem remédio, o que só Jesus voltou para contar.
A noite novamente envolvia cidade, gente e o que se sente. Chegada a hora de ir pra cama, o quarto misterioso estava ali inocente, refeito e chamando para um sono dos justos. Ao se deitar na cama, olhando para o teto com forro de madeira, o rapaz não conseguia pregar os olhos, a cabeça matutando o que se passara ali desde que chegou, as histórias, a velha, o casal, o teto de madeira, os ruídos estranhos na noite anterior, sua arma na mala, a mudança de quarto, a partida misteriosa e soturna do casal, a janela ao lado cama, o copo d’água, uma lamparina acesa a vagar na escuridão, o teto de madei... de súbito levantou da cama para poder abrir a janela e nesse lance de sorte sortuda ... craashbrunmm!
Ao voltar a cabeça pra ver o que foi aquele estrondo que quase lhe tirou o coração pela boca, viu o rapaz que sobre a cama jazia o enorme tabuado de madeira que ficava acima dela. Ao perceber a meia luz o vulto que vinha em sua direção, sem pensar duas vezes e em questão de segundos pegou sua arma ali no meio daquelas roupas na mala aberta e atirou. Matou a velha.
_ Pois bem, meu rapaz, depois dessa história que você acaba de me contar, não resta dúvida de que aquela senhora dava um fim em seus clientes.
_ E agora seu delegado, o que faço?
_ Já fez! Se toda história tem um desfecho, certamente acharemos o dinheiro e pertences que ela roubava dos hóspedes, assim como seus corpos ocultados em algum lugar daquela pensão. E se tem moral da história, nunca se deve falar mal de gente velha.