Hoje resolvi ter uma atitude marginal. Saí de casa e a primeira coisa que fiz foi pegar um ramalhete gigantesco de flores para sair distribuindo aleatoriamente. Quem cruzar o meu caminho corre o risco de levar um entusiasmado aperto de mãos e não se espante se de repente um estranho no meio da rua vir em sua direção de braços abertos, pode ser que seja eu querendo lhe dar um caloroso abraço. Hoje quero estar a margem dessa sociedade, direi muitos “obrigados”, “me desculpe”, “por favor”, “eu preciso de você” e se tentarem me tirar do sério, juro que vou tentar considerar o ponto de vista de quem o fez. Vou ficar à margem dos desafetos, do medo do outro, do distanciamento entre as pessoas, da injúria, do individualismo exacerbado, do egocentrismo, do egoísmo e das injustiças.Hoje serei um marginal no lugar onde vivo, vou ouvir boa música, ler - de preferência bons livros -, usarei vocabulário refinado, não quero proferir baixarias, vou selecionar o que passar na televisão, darei importância a tudo que puder acrescentar algo de bom e humano à minha cultura. Pretendo recolher o lixo que eu produzir, separando-o para reciclagem, usarei apenas o necessário para sobreviver.
Nessa atitude marginal, vou fazer diferente do que já fiz, sairei pelas ruas observando tudo, cumprimentando a todos, prestando atenção no que diz aquele monte placas, tentando ouvir pássaros, admirar jardins e árvores, ver as cores das roupas das pessoas, “ver as pessoas”. Serei gentil com o balconista da padaria, com o cobrador de ônibus, pegarei todos os panfletos que cruzarem meu caminho e prometo ler um a um, se me pedirem um minutinho de minha atenção, não terei pressa, nem compromisso importante naquele momento.
Estou cansado do habitual, vou cometer infrações como respeitar a faixa de pedestres, não jogar papel de bala no chão, deixar que os não-fumantes respirem ar puro, aguardar meu momento de ser atendido nas filas, desligarei meu celular em lugares que carecem de silêncio, vou ouvir o que o outro tem a dizer, falarei mais baixo. Se a imagem e a aparência quiserem falar mais alto, prometo que vendarei meus olhos para que desapareça toda a diferença, discriminação, cores desarmônicas, e o que for feio poderá ser belo e vice-versa, deixarei o coração dominar a razão.
Quero me tornar um marginal, fazer diferente daquilo que nos faz tão mal, respeitarei o meu vizinho, guardarei o impulso emocional das partidas de futebol para tomar partido do que é injusto em meu país, vou ignorar o carnaval, respeitar as mulheres como se fossem mulheres, tratar as crianças como se fossem simplesmente crianças, valorizar os velhos como se fossem jovens e deixar transparecer minha boa educação.
Hoje terei uma atitude marginal, falem bem ou falem mal, vou por aí cometendo esses delitos, sei que muitos ficarão boquiabertos de testemunhar tal impertinência, e no meu comportamento estranho, fora dos padrões de nossa realidade, serei considerado doente, louco, perigoso e fatalmente feliz.
Imagem retirada do site http://www.fotoplatforma.pl
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