“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, assim termina a obra clássica de George Orwell A Revolução dos Bichos e subvertendo o real significado dessa frase - quem leu sabe - aposto aqui na aplicação ao pé da letra na caracterização dos hábitos cotidianos de muitas pessoas que conhecemos e convivemos. Sim, estou me referindo à falta de higiene ou de preocupação com ela. Fico às vezes pensando, qual será a dificuldade que as pessoas têm em deixar os lugares por onde passam do mesmo jeito que encontraram?Fui a uma assembléia - manifestação da elite intelectual do nosso país na encarnação real e concreta da luta de classes -, na última sexta-feira e fiquei indignado, nem tanto com a posição assumida pelos contestadores no momento de votação, mas com as atitudes desses que promovem a cultura e educação no país. Minutos depois de terminada a apelação naquela famosa praça do centro de São Paulo, passei novamente no local junto com um camarada, procurávamos ônibus, e parecia ter ocorrido uma guerra campal ou tragédia sísmica no lugar, me refiro à sujeira mesmo, à quantidade de restos de comida, papel, garrafas pet, latinhas e coisas que nem valem a pena mencionar. Pensei que tudo aquilo ali não era necessário, e não era.
Já reparou como fica uma sala de cinema depois que termina a sessão? As salas de aula depois das aulas? A praça de alimentação do shopping a cada rodada de pessoas que por ela passam? E a sua casa depois do churrasco? Nem ônibus escapa ao rastro imundo por “nós” deixado. Tudo bem, é impossível ser feliz sem modificar o ambiente onde convivemos, concordo também que a desorganização faz parte da criação, mas e a sujeira pode ou não ser evitada? E o mais curioso é que todo mundo reclama da sujeira nos lugares públicos, diz que “ninguém respeita os ambientes de convivência e as pessoas não têm cuidado com a nossa cidade”, mas quem são essas pessoas que não têm zelo? Você? Eu? Quem? E o fala-fala em épocas de enchente que “as pessoas jogam lixo nas ruas e entopem bueiros”, nunca ninguém faz isso, é sempre os outros.
Todo mundo olha de cima e torce o nariz ao escolher um lugar para fazer uma refeição quando está na rua e sempre ouço a frase “só vou comer onde for limpinho”, no entanto essas mesmas pessoas, vindas da rua, ao entrar nos estabelecimentos escolhidos a dedo pra poder comer, se quer lavam as mãos pra se sentar à mesa do restaurante ou lanchonete. Andar de ônibus pra mim é uma verdadeira prova de fogo, pois não adianta tomar banho antes de sair de casa, fatalmente você sairá imundo e cheirando até o que nem imagina. Acho um absurdo que ás seis horas da manhã alguém já esteja cheirando sovaco e o pior é que tem, quem pega ônibus ou trem em horário de rush sabe. Infelizmente não estamos utilizando os cerca de quatro milhões de anos de evolução e conhecimentos acumulados ao longo da nossa história. Ironicamente a escova de dente foi considerada uma das invenções humanas mais importantes da história numa dessas pesquisas à moda revista de curiosidades e, no entanto muitos podem, conhecem, mas não fazem uso. Porém, os campeões no quesito falta de higiene ainda são os fumantes. Se eu for comentar aqui, precisarei de um texto de cem páginas só pra fazer uma introdução, mas é outro problema que somos obrigados a aceitar como normal nos “espaços-convivência”. Apagar bituca em copo ou prato, jogar bituca no chão, poluir o ar já tão poluído com aquela fedentina toda. Vejo pessoas de manhãzinha saírem de casa de cabelo molhado e empestiadas de perfume, mas o cigarrão aceso e enfumaçando a roupa e o corpo todo.
Neuroses à parte, lembrei daquelas reportagens que mostram criação intensiva de porcos para exportação de bisteca, quem disse que os porcos de hoje em dia são porcos? Eles comem ração, vivem em chiqueiros mais limpos que muitos espaços onde passamos a maior parte do dia, tomam vacina e o melhor de tudo: tomam banho de hora em hora. Prova disso é que quase não há mais aquelas doenças transmitidas pela carne de porco, pelo menos se for de boa procedência. Mas e as pessoas? Aquelas pessoas que não são você, nem eu e nem ninguém, aquela que você acabou de apertar a mão, por exemplo, será que tem boa procedência? Falei.
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