_ Alô?_ Oi! Estou te interrompendo?
_ É... não sei._Que voz é essa? Algo de errado?
_ Talvez, ... acho que não.
_ Sabe que hoje lembrei de você, não sei mas... acho que sonhei com você e... não lembro direito como foi o sonho, então lembrei que faz tanto tempo que a gente não conversa e estou te ligando pra saber como você está!
_ Que bom._ Sei não, mas sua voz está tão estranha! Poderia jurar, mesmo sem poder te ver, que é quase um pedido de ajuda. Mas, ... olha, hoje tive um dia tão cheio, estava tão cansado de tudo e a cabeça cheia de idéias ruins. Quando voltava pra casa em meu carro... sinceramente pensei em joga-lo em cima dum poste qualquer e fazer uma bobagem, foi quando começou a tocar uma canção no rádio e me fez mudar de idéia. Cara, parece até que foi providencial começar a tocar aquela canção bem naquela hora! Para-nã-nã, lá-lá-lá... nem lembrava mais dela.
_ É verdade, essa música é velha mesmo, nem eu lembrava mais dela também.
_ E aí? Algo novo pra contar?
_ Sei lá.
_ Mas... voltando à música, eu lembrei aquela vez em que a gente quase se meteu numa confusão por causa daquela garota que você cismou de dar em cima lá na Galeria e ela tava acompanhada por aqueles caras esquisitos com corrente saindo do nariz e entrando pela orelha he he! Achei que a gente fosse apanhar aquele dia. Fecharam o cerco mas tivemos a sorte de cruzar com os guardas e...
_ É mesmo, eu lembro também! E tava tocando essa música quando a gente já estava no ônibus vindo embora e as pessoas olhavam pra gente com curiosidade, só por que entramos correndo nele já em movimento.
_ Cada uma que a gente aprontava! Nossa! Lembra quando dava aqueles cinco minutos de revolta lá na empresa em que a gente trabalhava? A gente combinava de pedir as contas e na hora que chegava na sala do chefe, perdia a coragem, inventava uma desculpa qualquer e voltava ao trabalho he, he! ... aquele cara era um filho da puta.
_ É verdade cara, a gente era muito bobo e sem noção. Nada como o tempo pra trazer consternação.
_ Lembro também de quando a gente era criança, éramos felizes e não sabíamos. Frase mais clichê essa, mas é verdade. AH! Agora vai cara, eu e minha namorada marcamos o casamento pro final do ano. Agora não tem jeito e você vai ser nosso padrinho hein?!
_ Pode ser._ E você vai mesmo casar ano que vem e morar naquela cidade lá não sei onde?
_ Não. Nem vou casar, nem vou mudar.
_ Que isso cara? O que acontece aí?
_ Sei lá. Estou desistindo de quase tudo._ Mas... aquele projeto pro ano que vem ainda ta de pé?
_ Vamos ver.
_ Hei cara tenho um convite pra te fazer, é pra esse fim de semana. A gente lá do... peraí... ce tá muito ocupado? Faz tempo que não te vejo, posso ir até aí falar com você de tudo o que a gente aqui está combinando?
_ Pode. Estou aqui, desce aí.Dois minutos depois...
_Olá! Tudo certo aí cara? Quanto tempo! Nem parece que a gente mora no mesmo prédio.
_ Tudo certo. Agora estou melhor, estava preparando um lance aí, mas não era importante.
_ Sua cara não nega o cansaço, mas esse sorriso é do bom e velho camarada.
_Também, com essas coisas que você me lembrou por telefone, só rindo mesmo. Entra aí.
_ Dia longo esse. Mas, ... o que essa gilete está fazendo aí em cima da mesinha da sala?
_ Nada não. Até esqueci o que ia fazer quando fui atender ao telefone._ Que estranho, nem de fazer a barba você gosta, e sempre preferiu barbeador elétrico.
_ Acho que era algo sem importância. Sei lá, às vezes a gente muda de idéia...
Imagem: capa de "Unknow Pleasures", 1979 do Joy Division. Tudo a ver né?
Gillette aqui foi utilizada com um "T" e um "L" como "nome da coisa" e não a marca.
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