sábado, 1 de novembro de 2008

Veneno

Então o chamaram e com olhares carniceiros, começaram a rodeá-lo e de um jeito bem provocativo: “Chamamos o senhor por que é sensato e nunca seria capaz de cometer injustiças! Também sabemos que jamais seria capaz de condenar uma pessoa por qualquer motivo, sempre prega o dom de perdoar” – estavam experimentando aquele homem para ver se ele ficava apurado – “o que tem a dizer sobre o caso?”. Apontavam uma mulher de cabeça baixa e diziam que era infiel ao marido, levava uma vida impura. Todos já munidos de pedras nas mãos esperavam uma resposta - “agora queremos ver o que vai fazer pra sair dessa” - olhando a situação vitoriosos. Por um lado o “juiz” não poderia defender alguém que vivia em pecado, por outro, se condenasse a pobre diaba ao apedrejamento derrubaria por terra seu ministério em defesa do perdão. Foi aí que agachou, ficou um tempo em silêncio, rabiscou o chão, olhou para o céu e com toda calma do mundo respondeu: “Aquele que aqui estiver livre de pecado que atire a primeira pedra”. Em questão de minutos a multidão se desfez, saindo um a um procurando mais o que fazer.

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Numa tomada externa o repórter pára uma transeunte e pergunta sobre a sua opção – era antevéspera de eleição e só se falava nisso -, a mulher num misto de distanciamento, ignorância e esperança respondera que na hora em que fosse votar escolheria um candidato, pois ainda não conhecia nenhum. Direto do estúdio o âncora acrescentava didaticamente que o povo brasileiro deveria se atentar mais à questão e voltando para a imagem da rua daquela periferia próxima ao quinto dos infernos, o repórter num surto criativo pergunta se a vida naquele lugar é boa e o que a distinta senhora espera do próximo prefeito. Ajeitando a criança catarrenta no colo, a mulher responde que “os político devia olhá mais pro povo e aqui, a gente é pobre mais é feliz”. Num tom emotivo o experiente apresentador emenda: “Aí está a imagem do povo brasileiro. Que garra tem esse povo sofrido! Ta aí a lição de vida que devemos tirar de nós mesmos todos os dias, apesar do sofrimento essa gente ainda consegue ser feliz, a gente reclama do que? ... E depois do intervalo: as expectativas dos comerciantes de shoppings para as vendas de fim de ano, a estimativa é de um novo recorde, é já já...”

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Sobre a mesa do professor descansava a última edição daquela revista de circulação nacional com sua famosa seção de páginas amarelas e ele muito convicto xingava o governo, as igrejas, o modo de produção vigente, bradava retumbante. Pleno de toda razão discursava a favor dos desfavorecidos pela ditadura da disparidade social, citava pensadores importantes, frases de impacto moral e vetava as escolhas de seus ouvintes. De meia em meia hora o vazio emocional dos alunos era quebrado pelas badaladas do sino da Igreja da Matriz que ficava na praça em frente à escola. De dez em dez minutos a verborragia inflamada do mestre era obliterada pelos toques de celulares que soavam as mais extravagantes e alegres canções eletrônicas. De cinco em cinco minutos o ar da sala de aula se tornava ainda mais denso com os bocejos rebeldes. Como num ciclo vicioso, a roda de palavras girava: esquerda, capital, direita, religião. A metralhadora do mestre ativara para todos os lados e em todas as direções, já não se sabia mais quem era o alvo ou a vítima de seus apontamentos, pois a razão que permeava o discurso ora preventivo, ora de reprovação crescia inexoravelmente em direções opostas. Criticava a opressão do trabalho, a repressão política e social e a submissão diante da religião. Olhou para o relógio de pulso, viu que o tempo expirava e ao toque do sinal indicando o fim do dia letivo, num tom de advertência, despediu-se dos ouvintes: “Agora vocês estão liberados”. Na manhã seguinte, ao entrar na sala de aula ainda vazia, em letras impregnadas de muita vida, observou que no quadro de giz estava escrito: “ABAIXO A DITADURA DO PENSAMENTO!”.

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