Gerson I - A origem
Gerson sempre teve amor próprio e era tanto amor que acabou se tornando o centro do Universo para si mesmo. O desprezo pelo outro fazia-o enfatizar cada vez mais o próximo em suas ações cotidianas. O dia começava depois de uma bela e caprichada cagada em algum banheiro público. Limpava-se, abria a porta do reservado e saía. Dar a descarga pra que? O próximo a usar a privada poderia fazer isso e se caso não fizesse, alguém que ganha pra limpar banheiros o faria.
Gerson II – A missão
Gerson bebia cerveja enquanto dirigia seu carro. Saciada a sua sede e amenizado o calor do corpo - provocado por aquele trânsito infernal -, simplesmente se livrava da latinha jogando-a pela janela do veículo ali mesmo na rua . Afinal, não há coleta seletiva em todas as ruas e avenidas da cidade e jogar latas de alumínio no lixo comum dificulta o trabalho dos catadores de latinha e seu meio de sobrevivência, então, fica mais fácil apanha-las no asfalto.
Gerson III – E a câmara secreta
Gerson ia às compras no hipermercado, pegava um item na seção de produtos de limpeza, desistia do produto e dispensava-o numa prateleira qualquer da seção de laticínios ou cereais, os repositores estavam lá para organizar as gôndolas e deixar tudo bonitinho, enfileirado e separado do jeito que a gente sempre encontra quando vai ao mercado. Ao sair para o estacionamento levando o carrinho abarrotado de compras, Gerson enchia o seu bagageiro, fechava-o e saía dirigindo satisfeito deixando o carrinho ocupando a vaga ao lado ou na traseira de outro carro qualquer. Quando o outro motorista chegar, não custa nada ele guardar o carrinho no espaço reservado para isto.
Gerson IV – Esqueceram de mim
Gerson costumava mudar constantemente de endereço. A cada mudança, sempre havia um sofá velho, colchão rasgado ou guarda-roupas quebrado que não tendo serventia na nova casa, era deixado na antiga residência para o próximo morador dar um destino ao elefante branco, às vezes depositava cuidadosamente a bugiganga na calçada em frente a um terreno baldio ou mesmo em frente ao muro da vizinhança. "Pra onde vou... é longe e não passarei mais por aqui", pensava ele.
Gerson V – A rede social
Gerson tinha uma certa propensão a lembrar e esquecer fatos e compromissos repentinamente e em momentos pouco oportunos. Ao dirigir pelo centro da cidade parava seu carro no meio da pista para pedir informações sobre endereços interrompendo o fluxo logo atrás, considerava sua "urgência" uma "urgência de maior urgência". Quando se encontrava na condição de pedestre, atravessava a rua - onde lhe conviesse -, ignorava a calçada e as faixas de sinalização, ia pelo meio da rua mesmo, sabia que o pedestre sempre tem razão e que os motoristas não são bestas.
Gerson VI – O retorno do rei
Gerson era simples assim. Transferia o problema para os outros, levava vantagem, mas não passava ninguém pra trás, apenas “chegava na frente”. Tinha sempre razão em todo lugar, queria ser bem atendido, era o escolhido, simplesmente o máximo! Algum dia ainda receberia a estatueta do Oscar, pois era o melhor em todas as categorias, campeão de bilheteria.
Gerson - Parte final: E as relíquias da morte II
Gerson permanecia na sua trajetória de glória até que um dia encontrou Frederico. Fred ou Kiko, como era conhecido, trafegava acima do limite de velocidade permitido para transitar naquela rua residencial, quando ouviu um baque e sentiu o automóvel dar um solavanco. Olhando pelo retrovisor viu um corpo lá estendido no chão, o corpo ia ficando pra trás e cada vez menor na paisagem. Era Gerson o atropelado. Kiko não parou para socorrer pois estava atrasado a caminho de um importante compromisso e pensou com tranqüilidade que alguém iria fazer alguma coisa para resolver “o problema”. Ninguém se responsabilizou, Gerson agonizou lentamente esperando providência alheia e padeceu.
Inspiração: reportagem publicada no site do Jornal de Lavras " Desrespeito incomoda um cidadão de Lavras" ; publicada em 20/07/2011 08:01. Foto:Jornal de Lavras. Sobre a "Lei de Gerson": http//:super.abril.com.br/superarquivo/2004/conteudo_124358.shtml.
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