sexta-feira, 4 de abril de 2008

Cría cuervo ...


É assim que começa, ele pede e você dá, ela chora e você cede, você fala uma coisa e ouve três e ainda diz “que gracinha ela tem o gênio forte igual o da mamãe!”.

Tenho observado no cotidiano como aquele velho ditado "ser pai ou mãe é padecer no paraíso..." até convém, só que o paraíso fica por conta do rebento que não tem limites, faz o que quer, quando, na hora e no lugar que quer, pois viver assim sem ser contrariado é realmente um presente pra qualquer sujeito candidato a umbigo do mundo.


Solidariedade, altruísmo, compaixão, amor e respeito ao outro, reflexão e aceitar as diferenças são coisas que se aprende e se ensina também! É difícil introduzir certos valores nas crianças e adolescentes (principalmente na era da supercomunicação de massa) mas as “experiências vividas” ainda continuam, ao meu ver, a melhor maneira de se aprender quando o assunto é convivência. Se a criança não aprende a ser contrariada, a ouvir a palavra “não” de vez em quando e nunca se viu em uma situação onde tenha que repartir e ceder, como esperar desse indivíduo atitudes tão importantes como essas.
Os principais responsáveis por fazer os pequeninos vivenciarem essas experiências de vida são, sem dúvida nenhuma, os pais. O ambiente desse tipo de aprendizagem é o lar. Assim como a escola deve oferecer um ambiente propício para a construção de conhecimentos significativos acerca da riqueza histórico-cultural construída pela sociedade na qual a criança vive, para que esta dê continuidade àquilo que insistimos chamar de civilização, os pais, nossos primeiros professores, devem dar “oportunidade” aos filhos de aprenderem valores básicos como aqueles que tanto reclamamos por não presenciar mais com tanta freqüência hoje em dia.

A sociedade assiste horrorizada à episódios como o da loira que matou os pais a paulada naquele bairro chique de São Paulo, entre tantos outros casos que a opinião pública condena e o jornalismo sensacionalista em sua demagogia “cata-Ibope” reforça com protestos contra esse tipo de crime hediondo, mas... alguém já se perguntou se essas pessoas - como a loira assassina por exemplo - durante a vida ouviu algum “não” dos pais? Pois bem, no dia em que disseram “não, você não pode namorar fulano.”, ela deu o que como resposta aos pais? Não que esse tenha sido o único motivo do crime, certamente a fortuna pesou bastante (mais uma vez um valor que se sobrepôs a outros valores) e de modo algum quero justificar a atitude cruel daquela criatura, mas fica aí um exemplo concreto das possibilidades de se criar monstros quando o tempo, o trabalho, a vida corrida e a falta de um olhar mais atento dos pais sobre os filhos se tornam pretextos para nunca se dizer “não”.
É fato que existe o temor por parte dos pais em magoar os filhos com um “não” e que estes “cresçam revoltados”, e aqui cabe também aquela fala  muito comum  “...quando eu era pequeno eu não pude ter nada disso e agora vou fazer de tudo para que meus filhos tenham”, seja uma preocupação justificada, entretanto, o problema é quando esse esforço não vem acompanhado de ponderações e sensatez, pois os pais devem mesmo fazer de tudo que tiver ao seu alcance para dar o melhor aos filhos e isso inclui também dar “limites”, essa pode ser a maior prova de amor. Passar a mão na cabeça, fazer vistas grossas ou desprezar más atitudes dos filhos só colabora para que eles futuramente não tenham senso do que é justo, correto, razoável. Um mimo é sempre bom e quem não gosta? Contudo, mimar não é apenas presentear para compensar a ausência no dia-a-dia, muito menos dizer sim para tudo, só porque o pai passa pouco tempo com a criança e não quer contrariá-la. Se em casa a criança é o umbigo do mundo, mundo afora não será, e como ela irá reagir a um mundo que contraria, impõe regras e diz “não”?

O primeiro passo para a construção de um grande ser humano é faze-lo ver no próximo um outro ser humano, que sente as mesmas coisas que ele próprio sente. Adoro o título e a mensagem de uma música da banda gaúcha Nenhum de Nós: “Permitam que seus filhos aprendam a ter compaixão, ensinem os seus filhos, ensinem a ter compaixão.” É a lei da ação e reação (em cadeia). 

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